A peça que mais gostei no Grunes Gewolbe (e não, não foi o grande diamante verde)

O Residenzschloss (Palácio Real de Dresden) é a antiga residência real, com vários estilos arquitectónicos entre o barroco e o neorrenascentista, e uma torre cujo acesso também é possível.

Nos dias de hoje é também um espaço museológico de 4 níveis que alberga respectivamente: o Grunes Gewolbe (Alas Nova e Antiga do “Cofre Verde”), a Galeria dos Príncipes e uma Biblioteca de Arte, uma secção de História e Vestuário Medieval do Séc.XV, a Ala Renascentista (pisos 0 e 1), o Munzkabinett (Secção de Moedas Antigas), Riesensaal (Sala de Armaduras) e Turckische Cammer (Câmara com Tendas Turcas) no 2º piso, e finalmente o Kupferstich Kabinett (Ala de Pintura e Fotografia) no 3º piso.

Quando viajo para um local novo, e apesar de toda a oferta histórica e cultural, aquilo de que gosto verdadeiramente é de andar nas ruas: sentir as pedras da calçada, o recorte dos edifícios e a forma como estes se enquadram na paisagem, a vibração das pessoas na sua vida quotidiana. Ocasionalmente, e se possível, estabelecer um contacto breve com algum local acaba por trazer histórias bem mais memoráveis do que aquelas trazidas pelos museus, cujas lembranças do que observámos são por vezes difíceis de aceder com o passar dos anos. Afinal de contas, são muitas peças bonitas, em muitos museus igualmente bonitos…

No contexto desta visita a Dresden tive a oportunidade de visitar a Ala Nova do Grunes Gewolbe, que alberga sobretudo ricas peças de joalharia em outro, prata, marfim e outros materiais e pedras preciosas. Embora o ex-libris do museu seja o diamante verde, a minha atenção foi toda ela para a peça que justifica este texto, O Trono do Grande Mogul.

O Trono do Grande Mogul é uma peça de arte barroca criada em Dresden entre 1701-1708 pelo designer e joalheiro Johann Dinglinger.

Ela representa a celebração do aniversário de Aureng-Zeb (1658-1707), o lendário e absoluto governante das índias entre 1658 e 1787, altura em que faleceu com 88 anos de idade. Detentor de um monopólio mundial em diamantes, das suas próprias minas de ouro e com as riquezas da Índia à sua disposição (seda, chá e especiarias, marfim), ele era visto pelos líderes ocidentais como a personificação do poder e riqueza absolutos e imensuráveis. O seu pai, anterior governador da índia, foi o edificador do conhecido Taj Mahal.

Para esta ocasião, príncipes e oficiais de todo o seu império viajavam até Dehli para prestarem homenagem, oferecerem presentes e, de certa forma, garantirem a estabilidade das suas posições. O Grande Mogul apresenta-se por isso sentado num grande acolchoado vermelho, no topo de uma escadaria de onde observa tranquilamente toda a recepção dada em sua honra. Curiosamente e do lado oposto da estrutura, surgem enormes balanças: a cada ano, e no primeiro dos 5 dias que durava este festejo, o Grande Mogul era pesado, pois este considerado o ponto alto das celebrações.

 

Com elevado nível de detalhe, Dingliger inspirou-se em relatos e histórias contadas por viajantes que provinham da China e da Índia e preencheu esta peça de quase um metro quadrado de dimensão com uma imensa variedade de figuras e objectos, estando representando não menos que 132 personagens feitas de prata e prata dourada. Eles presenteiam o Grande Mogul com 32 oferendas, incluindo um elefante branco, uma pirâmide, um grande vaso e um serviço de café. Dingliger usou mais de 5000 diamantes, rubis, esmeraldas e outras pedras preciosas (mais de 400 das quais foram desaparecendo ao longo dos tempos). Todas as peças são móveis, pelo que podem ser mudadas de posição e as cenas recriadas.

O Trono do Grande Mogul foi executado com a ajuda dos dois irmãos do joalheiro, durante 7 anos e sem qualquer garantia de que seria vendida. Augusto o Forte, contemporâneo de Aureng-Zeb, comprou-a em 1709 pela enorme quantia de 60 000 thalers (moeda de prata usada na Europa durante mais de 400 anos; não sei qual é o factor de conversão mas de certeza que deve ser muito dinheiro!).

Nota: texto adaptado a partir das informações do Museu.

 

 

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