Cerro Rico – “a montanha que devora homens”

Visto o conjunto amarelo e verde e coloco o capacete com lâmpada frontal. Com dificuldade, calço duas pesadas galochas repletas de lama ressequida e estou finalmente pronta para entrar nas minas de Cerro Rico. O uniforme nem que me fica mal e o cinto bem apertado sobre a cintura até dá o seu estilo, pelo que a primeira fotografia fica “a matar” como se diz.

Voltamos a entrar na pequena carrinha que me leva a meio da montanha, passando pelo caminho por vários cartazes que anunciam as cooperativas que controlam a exploração mineira. São actualmente mais de 460 entre activas e inactivas, representando cerca de 7500 a 12500 trabalhadores (os números a diferir de acordo com as fontes).

Ouvi falar deste local poucas semanas antes de vir. Procurava alternativas e pontos de interesse para a minha visita à Bolívia, e Potosí constou como uma cidade colonial bonita e interessante. Confesso que não explorei muito o conceito das minas, mas tinha lido na altura um título que me chamou à atenção: “Cerro Rico, a montanha que devora homens”. Não cheguei a ler o artigo.

A 4603 metros de altura está uma das entradas da mina, um buraco negro com um pequeno friso em madeira e uma placa numa parede lateral que o identifica como pertencente à cooperativa Rosário, explorada desde 1639. A actividade mineira iniciou-se há mais de 400 anos, em 1572, na altura através de mão de obra indígena explorada primeiro pelos incas e depois por colonizadores espanhóis. Esta cooperativa possui mais de 40 minas e nela trabalham perto de 3500 bolivianos.

Aqui procura-se prata e estanho, nas restantes também zinco e chumbo. Trabalha-se 4 a 5 horas por dia, sendo a remuneração baseada na productividade. O ordenado médio é acima do comum para o resto da população, cerca de 950 bolivianos por semana (114 euros). Contudo, tal também significa que quem não recolhe minerais não recebe, para além de ter gasto dinheiro na aquisição de material para prospecção.

Sigo o guia juntamente com dois casais, recebendo a indicação de que não nos podemos afastar uns dos outros e que não podemos ter “maus pensamentos” pois dão azar. Ao todo não somos mais de 10, repartidos em dois grupos que só se voltariam a encontrar no final. Pelas paredes de pedra da mina inicialmente “cuidadas” e rapidamente puramente arcaicas, escavadas na rocha, estão apoiados tubos negros que transportam oxigénio, não para os trabalhadores mas para o funcionamento das perfuradoras. No chão, atabalhoados carris de metal desenham a linha que vamos seguir nas próximas horas, a mesma onde circulam os carros de materiais.

Em pouco tempo deixamos de ver a entrada, enquanto os pés se enterram quase 20cm na lama. A temperatura ainda fresca (cerca de 15ºC) vai aumentando progressivamente, e sabemos que em algumas zonas atinge os 40ºC. O ar vai-se tornando cada vez mais rarefeito e o “tecto” ocasionalmente mais baixo, sendo várias as vezes em que tenho de me dobrar para continuar, a pedra a bater no capacete porque os olhos voltados para o chão estavam a tentar evitar quedas desnecessárias.

Na primeira paragem recuperamos folgo e ficamos finalmente a observar alguns dos minerais presos na rocha no seu estado mais puro, tons de azul violeta alternados com laranja e vermelho, pequenas estalactites alternadas com pedra brilhante como ouro (pirite). Sim, é lindo. É mágico, é único, é intocado. Mas tudo o resto à volta é escuro, cinza, negro, poluído, pesado. Homens passam por nós de olhos vazios, o rosto cansado, o corpo suado. Por vezes empurram vagões de 1000Kg carregados de pedra por outros recolhida, um desejo material de que contenha o que procuram. Da face sobressaí ainda a assimetria provocada pelo bolo de coca que mantêm nas suas bocas: estas folhas retiram-lhes o apetite, dão energia e supostamente ajudam a filtrar o ar. São capazes de ficar com elas horas seguidas, substituindo as velhas pelas novas quando o saber desaparece. Poderão não comer mais nada durante o seu turno de trabalho. O mineiro consome coca e álcool puro a 96º ou misturado com água. Também pode fumar, mas o monóxido de carbono em alguns dos locais é tão elevado que impede que a chama se forme. Oferecemos as bolachas e sumos que trouxemos de presente – água não é o mais desejado, curiosamente.

Tiro uma fotografia com um dos mineiros e um dos vagões e não sou capaz de mais. Continuamos a caminhar até à paragem seguinte, para a qual temos de descer 5 metros numas frágeis escadas e rastejar pela pedra até uma pequena câmara onde encontramos o Sr. Severo. 48 anos a aparentar 60, mãos negras a agarrar estacas e martelos de ferro, pergunta porque não trouxemos dinamite. Sim, dinamite, o mesmo que vimos no mercado horas antes e que tivemos na mão, o mesmo que aprendemos como se “monta” e que se pode adquirir por apenas 25 bolivianos (3 euros). D. Severo – na América latina o Sr. é Don – é um “sócio”, o mesmo que dizer um explorador da mina de categoria 3 em termos de hierarquia. Tal significa que em tempos terá pago cerca de 250 euros à cooperativa por uma pequena parcela de terra, ficando a partir desse momento a retribuir apenas 15% de todo o seu lucro. Um investimento que compensou, contou-me ele. Abaixo desse nível temos os “assistentes” e os “peões”, aqueles que colocam e detonam a dinamite. Conversamos um pouco antes de o deixar à sua sorte, as mãos negras e calejadas de 8 a 12 horas de trabalho diário há perto de 23 anos.

Voltamos ao circuito, mais homens a passar por nós, a parar para pedir algo para beber ou comer ou então simplesmente a tentar empurrar os carros. Nas subidas, os rapazes do grupo esforçam-se por ajudar, sentindo no corpo o custo da vida. É a montanha que devora homens, e não consigo deixar de pensar que esta é quase uma vingança pelos homens que lhe removem as entranhas. O Homem escava a pedra, tira o seu mineral, parte, rebenta, transporta e vende. A montanha retribui com escuridão e silêncio total, só entrecortado por passos, vagões ou dinamite. O pó entranha-se nas fossas nasais (as máscaras são obrigatórias, mas quem as quer quando ainda dificultam mais a entrada do ar?!) e acumula-se nos pulmões. A montanha já só tem mais 80 anos de exploração. O mineiro tem uma esperança média de vida de 50 anos. A prata, o estanho, o zinco e o chumbo pagam-se com silicose, insuficiência respiratória crónica e morte.

Já pronta para o regresso, fazemos um pequeno e último desvio. Conhecemos a representação material do deus da montanha, o diabo, el tio. Uma figura perturbadora sentada no fundo de uma caverna com chifres e pés de cabra, olhos e dentes particularmente realistas. Um protector, segundo os mineiros.

Após 2,5Kms de distância e quase 100 metros de profundidade, saio da mina transtornada. A fotografia tirada para documentar o momento não consegue mentir, não é possível mudar a expressão que parece que envelheceu 10 anos. Não devo ter estado mais de 2 horas na mina, e não consigo imaginar o que é viver do trabalho neste ponto do inferno.

a expressão assimétrica pelo bolo de coca no interior da boca
os (escuros) caminhos do interior da mina

diferentes tonalidades de minerais
cristais de sulfato de cobre (não comercializados)
restos de coca cuspidos no chão aquando de uma pausa no trabalho
Luis Castillo foi o único mineiro que vi a utilizar máscara
As mãos calejadas de Don Severo
“El tio” ou o diabo da montanha, a quem os mineiros prestam reverência
antes e depois das minas (a expressão não engana)

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