Como iniciei um projecto de intercâmbio médico com Potosi, Bolivia

Não tinha ainda saído das minas de Cerro Rico e já vinha transtornada com aquilo que os meus olhos presenciavam. O olhar mortiço, os músculos cansados, a falta de condições de trabalho. O ar pesado, as mãos nuas ou protegidas por velhas luvas, máscaras quase inexistentes embora obrigatórias. As muitas horas sem comer – sorvendo apenas os sucos do bolo de coca que se vai misturando numa das bochechas – e que é finalmente interrompido por uma garrafa de sumo repleta de açúcar ou um pacote de bolachas.

Não tinha ainda saído das minas de Cerro Rico e já me perguntava sobre as condições de saúde dos mineiros e das suas facilidades em aceder ao sistema de saúde. Nesse sentido, acerquei-me do guia turístico e durante a hora seguinte fiz-lhe sombra (apenas no sentido figurativo, pois a escuridão total da mina nem isso permite), enchendo-o de perguntas que urgiam resposta. Aquilo que ouvi não me agradou: poucos médicos, ausência de hospital com serviços adequados e por conseguinte necessidade de deslocação à cidade seguinte, a quatro horas de distância por caminhos muitas vezes de terra batida.

Para quem lê, o acima descrito pode ser comparado com Portugal e com a centralização de alguns serviços. Sim, por vezes também os nossos portugueses necessitam de se deslocar por muitos quilómetros para chegar a um serviço de saúde. Mas aqui estamos perante pessoas que trabalham por vezes 6 a 12 horas numa mina (incluindo, segundo consta, crianças) e que recebem em função da sua productividade – do seu esforço físico e do mineral que conseguem recolher. As estradas são francamente más, o trânsito caótico. Até sair da cidade pode ser difícil. Há aqui muitas variáveis que agravam a sua situação.

Nesse dia, a minha fotografia à saída da mina não mentia. Senti que tinha envelhecido. Imagino quanto envelhece um mineiro. Aparentando 60 anos, a esperança média de vida destes homens não chega aos 45. Tal significa que muitas das pessoas com que me cruzei serão pouco mais velhas do que eu. Muitos morrerão de acidentes relacionados com detonações pouco seguras ou deslizamento de terras, os restantes de patologia oncológica ou respiratória crónica. Afinal, a “Montanha que devora homens” já levou mais de 8 milhões de almas desde o início da sua exploração, há 500 anos atrás.

Apesar da coincidência de se estar a realizar um congresso médico nos mesmos dias – e mesmo após participar por especial convite do centro de turismo – não consegui as respostas que precisava e a minha mente não acalmou. No dia seguinte começo por deslocar-me ao Hospital Obrero, onde se situa o serviço de Pneumologia. Esbarro com o facto de não ter um documento da direcção que me permita circular no serviço e fazer perguntas, o que não me surpreende. E, por este motivo, aqui muito não consigo fazer – o relógio a passar e um autocarro para apanhar ao fim da tarde a serem um importante factor limitativo.

Volto à avenida e subo até ao amplo edifício do Centro Policlínico, pertencente à Caixa Nacional de Saúde. Apresento-me na direcção, sendo imediatamente convidada a sentar mesmo antes de explicar ao que venho. Na hora seguinte, discuto com o Dr. Montoya as minhas motivações e a minha urgência em fazer algo – seja através de um eventual apoio financeiro seja através do estabelecimento de uma parceria para voluntariado. Fico a saber das necessidades materiais e logísticas deste espaço: faltam oxímetros, espirómetros, aparelhos de medição de monóxido de carbono e até máscaras. Faltam médicos, nomeadamente oncologistas. Falta o governo assumir que este é um problema urgente para a população de Potosi, que necessita de um serviço ainda mais diferenciado que permita cuidar na comunidade ou, em último caso, na cidade que os viu nascer.

Conversa puxa conversa e contacto puxa contacto, sou apresentada a dois membros da Sociedade Boliviana de Medicina Familiar. Em menos de duas horas estarei sentada com o director de serviço e de internato médico, Francisco Nina, que interrompe as suas férias para conversar um pouco comigo. Presidente da Secção Regional em Potosi, é o “número 2”, apenas precedido do administrador regional.

São 17 horas quando entramos no seu carro com destino ao hostel para buscar as mochilas e ao terminal de autocarros, de onde parto com direcção a Sucre. Firmado verbalmente, a permissão explícita para que se se inicie um projecto de intercâmbio em saúde entre os dois países com a brevidade possível.

um dos mineiros, aquando de uma pequena pausa no trabalho.
com o Dr. Montoya e o Dr. Francisco Nina, do Centro Policlínico de Potosi

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