Cuidados de Saúde Primários em Potosi (Bolívia)

Enquanto viajante, o meu percurso nunca se dissociou da vertente médica, tendo sido permanente a curiosidade de saber mais acerca dos sistemas de saúde dos países onde tenho passado. E embora no Chile e na Argentina tal não tenha sido possível, na Bolívia foi altamente compensado com uma visita ao Serviço de Pneumologia do Hospital Obrero e ao Centro Policlínico de Potosi (agora Centro Integral de Medicina Familiar).

Os cuidados de saúde bolivianos têm três vertentes: uma puramente estatal (gratuita), uma inerente à Caixa Nacional de Saúde (paga por intermédio de um desconto mensal no salário do assegurado) e a vertente privada. Relativamente aos mineiros de Cerro Rico – situação que motivou a minha visita – procuram os cuidados de saúde numa altura em que a patologia já está instalada e muitas vezes em grau avançado: são comuns concretamente a silicose, a osteoartrose, a HTA e a DM. A sua esperança média de vida não ultrapassa dos 45 anos, cerca de 10 a 15 anos inferior aos restantes bolivianos, e invariavelmente as causas de morte variam entre insuficiência respiratória crónica, doenças oncológicas ou acidentes nas minas.

Dirigido pelo Dr. Freddy Montoya, o Centro Integral de Medicina Familiar dispõe de 18 médicos de família, num total de 21 para a região geográfica. Serão necessários pelo menos mais 5 médicos para suprir as primeiras necessidades, referentes a 125mil utentes associados e uma taxa de utilização de 30%. Os turnos laborais são de 6 horas por dia – ou seja 30 horas semanais -, entre as 8h da manhã e as 14h ou daqui em diante até à 20h. Rotativamente, um médico assegura um atendimento complementar de urgência de 3 horas ao Sábado de manhã. Com registo informático equivalente ao nosso SOAP, todos os processos são impressos para salvaguardar a informação em caso de falha eléctrica. As consultas dispõem de um período de 15 minutos, correspondendo a 24 utentes por turno. Cada médico é auxiliado por uma enfermeira.

Todos os médicos executam as diversas valências, sendo contudo o planeamento familiar uma área pouco desenvolvida para além do rastreio oncológico. O método contraceptivo mais utilizado é a pílula; não existem implantes subcutâneos disponíveis no centro e os seus profissionais não estão habilitados para os colocar ou remover. O preço por unidade ronda apenas os 11 euros. Um investimento na formação destes profissionais poderia ser o suficiente para diminuir a elevada taxa de gravidez na adolescência desta população.

A Medicina Geral e Familiar é complementada com um trabalho de consultoria em permanência, dispondo o centro de um Cardiologista, um Ginecologista-Obstetra (que recebe todas as grávidas a partir dos 7 meses), um Pediatra (responsável por toda a Saúde Infantil até aos 5 anos de idade) e 2 assistentes sociais. Não contempla a Saúde Mental nem apoios na área da fisioterapia. A nível comunitário há sessões formativas 4 vezes por semana (2 de manhã e 2 de tarde), com cerca de 20 minutos de duração. A visita domiciliária deverá ocorrer no mínimo uma vez por mês.

Em termos logísticos, o Centro de Saúde organiza-se em dois pisos e será mais completo do que muitos em Portugal. Integra uma farmácia – o utente só precisa de levantar a medicação após a consulta, sem custos acessórios -, um centro de análises com laboratório de microbiologia (destacando-se a pesquisa de BK) e um centro de radiologia com equipamento para Rx e Ecografia (partes moles/ ginecológica). Nas suas traseiras, uma pequena porta dá acesso a um pátio comum com o Hospital de referência.

Após reunião com o Dr. Montoya e, posteriormente, com Francisco Nina (Director de Internato e membro da Sociedade Boliviana de Medicina Geral e Familiar), estão abertas as portas para um intercâmbio entre internos e especialistas de Medicina Geral e Familiar dos dois países. Esta oportunidade é também possível a colegas de outras especialidades, nomeadamente Oncologia, algo que, inconcebivelmente, ainda não existe em Potosi.

Leiam como lancei as bases para um projecto de intercâmbio médico na cidade de Potosi (Bolívia) aqui. 

processo clínico de uma das utentes
detalhe do processo clínico informatizado, adiante
consultor médico
Com o Dr. Freddy Montoya eo Dr. Francisco Nina, o projeto de intercâmbio médico e voluntariado.

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