Indústria, agricultura e questões de Saúde Mental na Ilha do Príncipe

A hora da refeição é, por excelência, o ponto alto da nossa discussão diária sobre os assuntos mais variados, desde os temas locais e aspectos que presenciamos no dia-a-dia até aos mais banais, passando um bocadinho pelas notícias que vão chegando de Portugal.

Hoje, uma vez mais e no meio de tantas outras coisas, surgiram 3 pontos de conversa distintos que me fizeram uma pequena luz e que não deixo de achar interessante partilhar convosco: indústria, economia e saúde mental num país sub-desenvolvido.

Declaro desde já não possuir quaisquer noções teóricas (ou práticas) de finanças e indústria, de circuitos de desenvolvimento, de gestão ou de economia – e embora assumindo o meu interesse pela saúde mental não fui procurar dados que sustentem o que escrevo a seguir, sendo apenas fruto da minha observação.

O Príncipe é uma ilha feliz. As pessoas são efectivamente felizes, com pouco ou muito pouco. Vive-se e morre-se. Aceita-se o que a natureza dá, e aquilo que tira. Não vejo fome e não vejo pessoas a mendigar. A terra é fértil, há pesca, fruta e legumes. As condições de saúde são parcas, é verdade, mas há harmonia no dia-a-dia, no saber levar, no “leve-leve”. Não vejo indústria, não vejo investimento sério do mundo ocidental, não vejo agricultura ou plantações “em barda”.
E isso agrada-me. Vejo selva tropical extensíssima e impenetrável que nasce pouco depois da capital, que é a mais pequena do mundo. Árvores de uma altura invulgar, e de uma variedade inquestionavel. Não vejo depressão, ansiedade ou outras patologias do foro psiquiátrico que são uma das principais causas de ida ao médico na Europa e um pouco por todo o mundo dito “industrializado”. Haverão perturbações da personalidade, esquizofrenias e demências certamente, mas não as perturbações limitantes e incapacitantes do costume.

E isso leva(-me) a questionar até que ponto a industrialização e promoção da ocidentalização fazem sentido num país como este, num povo que dá o que tem com um sorriso nos lábios
e que pouco pede em retorno que mais não seja do que uma “pura vida”.

É a olhar da escadaria do Hospital e a observar a mancha de verde que nasce em pleno centro da cidade em direcção a toda a montanha que sei que aquilo que estou a presenciar é único.
E dou por mim a desejar, (in)secreta e interiormente, que a agricultura nunca chegue, nem as máquinas, nem as plantações que muito dinheiro dariam a alguém que não este povo.

 

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