#Dias 16 a 21 – Kauai, a ilha jardim

Chego a Kauai depois de 12 dias em O’hau, a ilha mais conhecida do Hawaii. Foi um voo curto, de cerca de meia hora. À chegada espera-me o Hanza (amigo de amigo, que neste momento já somos todos amigos), que me alugou um dos seus carros por 4 dias; neste jardim tropical é impossível circular de outra forma – apenas 20% da área total da ilha é circulável, mas os autocarros teimam em não ser de confiança. Para além disso, as zonas “visitáveis” mais interessantes são sobretudo no norte e sudoeste, contando-se sempre com cerca de 1 hora para deslocações.

Pego no carro inicialmente aos solavancos, pois esta é a primeira vez que conduzo com mudanças automáticas. Finalmente e após duas voltas no parque de estacionamento, sigo com confiança pronta para desbravar a zona sul da ilha, onde vou ficar hospedada.

No radio começam a tocar os Coldplay, e no mesmo instante a minha cabeça remete-me para dias perfeitos no sul de Espanha e uma série de outras memórias, ao mesmo tempo que mudo de estação. Tento contrariar o comportamento habitual, e volto a colocar na estação anterior. E, pela primeira vez em quase um ano, oiço a música até ao fim. “Where do you wanna go? How much you wanna risk?”  Bem.. acho que arrisquei tudo para esta espécie de reset pessoal. Tal como no poker, isto de largar o que temos e ir viajar é como fazer all-in, mas sem grande margem de manobra.

Sigo viagem até ao rochedo do Sleeping Giant (que só aparenta um gigante adormecido por forte sugestão), às Cataratas Wailua (dois lindos mantos brancos derramados sobre uma lagoa) e Opaekaa (nhaaa..). No mapa tinha apontado Poipu como algo a ver ao final do dia, pelo que sigo nessa direcção. A zona de Poipu é das mais cénicas de toda a ilha, uma estrada ladeada por lindas casas de madeira de piso térreo ou de apenas um andar, com campos de golfe, palmeiras e muita praia pela frente. Termino o dia na praia de Shripwreck, uma praia linda com um pôr-do-sol intenso, alguns surfistas a apanhar as ondas mais rebeldes e os mais aventureiros a saltar do penhasco. Um sítio para voltar, prometi a mim mesma.

Wailua Falls
Surfistas na praia de Shipwreck

O norte de Kauai é o destino para o meu segundo dia. Aqui não há auto-estradas, e durante o caminho vou passando por pequenas vilas que, por algum motivo, nos fazem pensar que estamos no Texas, não fosse o verde luxuriante que as acompanha. Vou directa a Hanalei (amorosa!), onde fiquei de encontrar o Cameron (ou Jesus, como ele fez questão de dizer tendo em atenção o seu cabelo loiro e comprido), um verdadeiro hippie americano a viver na sua carrinha (van) desde há 5 meses e a alimentar-se daquilo que encontra nas árvores (e não só!..). Juntos vamos até à baía de Hanalei (uma das mais fotografadas de todo o Hawaii) e percorremos a primeira de onze milhas do trilo de Kalalau, onde se começa a avistar a costa de Na Pali.

A Baía de Hanalei (vista do pontão)
A costa de Na Pali

Continuo a tarde entrando por todos os desvios e descobrindo as praias de Anini, Secret (a esquecer!.) e o farol de Kilauea (fechado a partir das 17h). Por fim reencontro o Marc – americano de ascendência italiana que me ofereceu alojamento (mais um amigo de amigo!) – a preparar os seus jantares vegetarianos na cozinha, agradecendo secretamente a quantidade de vitaminas e alimentos saudáveis tão diferentes da tradicional comida americana das últimas 3 semanas.

O raiar do sol nas persianas, pelas 7h da manhã, desperta-me mesmo antes de o telemóvel o fazer e faz questão de me dar uma ajuda a despachar. Hoje é o dia em que vou finalmente ver o Waimea Canyon, ou o Grande Canyon do Pacífico. Ainda meia a dormir, escolho umas alpercatas confortáveis (que mais tarde se vieram a revelar a pior das escolhas para o mais lamacento e escorregadio dos trilhos) e preparo-me para uma paisagem que em nada desaponta. Inicialmente seco e árido, o solo deve o seu tom vermelho ao óxido ferroso ancestralmente vulcânico. Este enorme desfiladeiro faz-nos sentir num verdadeiro Jurassic Park, e sei que guardei o melhor dos seus cenários para o dia seguinte aquando da minha viagem de helicóptero.

Num dos miradouros sobre o Waimea Canyon

A semana passa a correr naquele que é sem dúvida dos lugares mais bonitos em que já estive na minha vida. Volto a Shipwreck  e a Poipu pouco antes de ir buscar o Marc ao aeroporto (tão generoso que inclusive me deixou ficar em sua casa, com o jeep, enquanto foi visitar os pais a outra ilha).  Encontro um restaurante/ esplanada voltado para a praia e tomo um cocktail enquanto sinto o vento a bater nas costas, as folhas das palmeiras a esvoaçar e o som das ondas ao fundo.

Há lugares no mundo que emanam tranquilidade, em que se inala natureza e se sente a terra com os pés. Em que a vida ganha outra forma porque as suas gentes, efectivamente, vivem. Ficarei para sempre grata a Kauai. Nessa noite, ao conduzir para casa, volta a ecoar a música. Oiço-a sem interrupções até ao fim e, inclusive, aumento o volume. E é assim que quero que continue… just like this.