My Couchsurfing Diaries: Francisco (Puerto Natales, Chile)

Francisco – “Não era o protagonista da história, era como um letreiro ao vento, como um sinal a indicar onde ir.”

 

  1. De onde surgiu o nome Zaltaxar?

Um dos nossos amigos, que viveu na vivenda que hoje é o Hostel, lembrou-se do nome Zaltaxar (embora eu nunca tenha gostado). Zaltaxar era uma palavra depreciativa que os aborígenes usavam para chamar a uma outra tribo, os Mapuches. Contudo, como estes a ouviram tanta vez começaram a incorporá-la na sua linguagem.

Eticamente, não se deve utilizar uma palavra aborígene para um negócio quando não se é realmente aborígene. Então adaptámos o termo (mudando uma das letras) e pedimos autorização à comunidade original de Punta Arena se o podíamos usar. Explicámos que não tínhamos sangue nativo, mas que eramos locais, como ”Hijos del Canelo”, filhos ilegítimos da terra. Mas fazia sentido: tínhamos estudado, vivido e crescido na região do povo Mapuche, que tem um lago sagrado que se chama Canelo (que é também uma árvore sagrada).

 

  1. De onde surgiu a ideia de abrir um Hostel?

O contexto – não a ideia – começou há muito tempo atrás, em 2010. Tinha um grupo de
6 amigos bastante coeso: estudámos juntos educação física, mantivemo-nos na prática de Kayak, fazíamos expedições anuais de quase 20 dias no inverno e outras mais curtas no verão.

Nessa época da minha vida tinha investido num grande projecto que não funcionou por má relação com os CONAF (os administradores do Parque Nacional Torres del Paine), e acabei por perder muito dinheiro. Foi tudo abaixo..

Felizmente, também era proprietário de um terreno muito bom com alojamento à entrada do Parque, junto ao Rio Serrano. A minha ideia inicial seria então desenvolver uma excursão de barco para a visita de 5 glaciares no mesmo dia, uma “one-day-tour” que conjugava o ponto de união de dois parques nacionais. Fizemos esta proposta junto do estado e obtivemos financiamento; estávamos organizados e prontos a começar. Contudo, a embarcação não chegou a tempo, perdemos a temporada e o projecto abrandou.

Em simultâneo, um dos nossos conhecidos (o Quim) reuniu-se connosco no final desse ano e acabámos todos uma noite a compartilhar as nossas experiências.  Ele vinha de um processo de divórcio e voltou a encontrar-se com a sua primeira namorada, pelo que precisava de um local intermédio para ficar… e então, nessa altura, pediu se podia ficar naquele espaço por algum tempo. Gostou tanto que acabou por manifestar o interesse em alugar um quarto e permanecer mais tempo. Começámos então a procurar por um quarto nas redondezas, mas sem sucesso: ou não existia ou era tudo caríssimo.

Em grupo, todos ajudámos a alugar uma vivenda (2013) que na altura era muito velha e desarranjada, aquilo que hoje em dia é o Zaltaxar. O Quim ficaria lá a viver nos primeiros tempos e nós usaríamos o espaço como oficina e garagem para as nossas actividades. Pouco tempo depois de nos começarmos a focar na melhoria do espaço, ele deixou de ajudar e o comportamento dele modificou-se… percebemos que estava deprimido e que já contava com diversas tentativas de suicídio anteriores.  Tentámos de tudo, psiquiatras, psicólogos e finalmente enviámo-lo para Temuco – a terra onde tinha estudado e tinha outros amigos. Uns meses mais tarde chamou-me e disse que se queria despedir. Nesse dia suicidou-se…

Ficámos com o Hostel entre nós. Eu estava em simultâneo a tentar para pagar uma dívida, que me levou 3 anos de trabalho. Assim que o consegui, larguei a ocupação que tinha e dediquei-me por inteiro ao hostel, que abriu a 22 de Janeiro de 2017.

 

3.Como consegues manter-te tão disponível para ajudar toda a gente, diariamente?

Eu tinha muita experiência em Kayak, mas não na área do turismo. A minha formação era em Educação Física, e fui treinador da selecção olímpica durante alguns anos. Quando pensei em fazer uma empresa, tentei ingressar em Administração de Empresas em horário pós-laboral, mas não haviam vagas. Contudo, haviam em EcoTurismo (2002), um curso de 3 anos que me abriu portas que não julgava que existiam; fui a 2 conferências mundiais (na Noruega e no Canadá) e comecei a ter um entendimento sobre o assunto acima da média. O EcoTurismo é uma actvidade sustentável a nível ambiental e foi declarado pela ONU como sendo de interesse mundial.

Comecei a perceber de gado, pesca, história e cultura, relação qualidade-preço, vendas e gestão de expectativas. Apercebi-me que a maioria das pessoas daqui não sabiam o que é que os viajantes procuravam. No meu entendimento, eu queria chegar a um lugar e dormir numa cama limpa, tomar um duche quente, uma cozinha ampla para cozinhas e oportunidade de fazer algumas actividades… As pessoas não querem estar um dia completo num hostel, mas querem dormir bem. E aí comecei a fazer o que tinha de fazer para que isso acontecesse… comecei a ajudar a maximizar a sua estadia… e isso agradava-me muito, ajudar os outros… era isto que eu procurava. Eu sabia muita coisa, e percebi que partilhando o meu conhecimento estava a ajudar os outros… disfrutava muito ajudando as pessoas. Não era o protagonista da história, era como um letreito ao vento, como um sinal a indicar onde ir. Tento tratar todos por igual.. todos os que cá chegam têm um propósito, e aos que não chegam com um sorriso na cara, é minha tarefa mudá-lo. Deste modo comecei realmente a disfrutar de falar com todos, de forma individual.

 

  1. Quais são os teus projectos para o futuro?

Quero fazer um Zaltaxar em Puerto Tranquilo e em San Pedro de Atacama. Não adaptar ma casa velha, mas criar um espaço de raiz. Tenho o plano arquitectónico e o dinheiro mas falta o terreno. Creio que o conseguirei em 2 anos estará tudo pronto.