My Couchsurfing Diaries: Marc Esposito (Kauai, Hawaii)

Marc Esposito – “Temos de nos aceitar por inteiro, e não apenas uma parte de nós..”

  Confesso que durante muito tempo (por motivos relacionados com muitas das coisas pessoais que me contou) não tive coragem de entrevistar o Marc, mas talvez nem fosse necessário. O Marc é daquelas pessoas intensamente expressivas, cativantes desde o primeiro instante. Tem uma história de vida extremamente interessante, um percurso vivo e ávido por novas histórias e que daria certamente para escrever um livro (pelo menos um documentário já tem).

Fiquei na sua vivenda em Kalaheo (Kauai) durante uma semana, embora ele não tenha permanecido comigo todos esses dias. Já tendo tudo programado, visitou a família em Maui a meio da minha estadia, deixando-me não só a sua casa (e total acesso à cozinha…) como também o seu jeep para descobrir a ilha à vontade.

Marc (Esposito), à semelhança de outros couchsurfers que tenho conhecido aqui no Hawaii, o teu nome parece tudo menos de ascendência polinésia..

O meu nome completo é Marc Paul Esposito, com ascendência italiana (da parte do pai) e meia escocesa/ irlandesa (da parte da mãe). A forma como eles se conheceram, num lago no Connecticut, é muito engraçada… o meu pai tinha um pequeno barco e quando se aproximou da margem viu a minha mãe, que estava por lá sentada. Perguntou-lhe se ela queria dar um passeio e ela aceitou. Estão casados há praticamente 50 anos… O barco ainda existe e encontra-se na garagem; quero recuperá-lo para o seu aniversário de casamento, para que possamos voltar ao lago todos em família. Para além disso, tenho este sonho de o trazer para aqui porque estou convencido de que se o conseguir vou conhecer a minha esposa dessa forma. Estou a planear ir para Maui no verão para tratar disto.

 

Tens uma família muito grande?

Tenho dois irmãos mais novos, ambos casados, um deles já com dois rapazes. Éramos muito próximos quando éramos novos e na verdade acho que hoje em dia ainda somos mais, embora um viva no Colorado (onde trabalha numa escola) e o outro na Pensilvânia (um programador informático muito bem sucedido). Adoro os meus irmãos, e mesmo que estejamos quase um mês sem falar, continua tudo igual. Tenho este plano idealizado de, a cada 3 anos, nos voltarmos a reunir e partir numa viagem de 3 semanas juntos, sem mais ninguém. De forma rotativa, cada um com direito a escolher a data e destino dessa viagem. Só nós, os irmãos a partir à aventura, sem mais ninguém.

Os meus avós paternos são da Costa Almafitana (em Itália), mas o meu pai já nasceu em Nova York (Bronx). Nunca tendo visitado Itália, tenho uma história gira acerca do meu nome e das minhas origens… Quando entrei na faculdade os meus amigos perguntaram-me sobre o meu nome, ignorando que também tinha ascendência escocesa. Uma vez o meu pai veio visitar-me, e um dos meus amigos disse-lhe “é tão engraçado que o Marc seja 100% italiano!”, ao que o meu pai respondeu “O quê? Eu é que sou 100% italiano! Não ele!..”. Mais tarde ele chamou-me à parte e falámos em como eu não devia ignorar o meu lado materno embora, como nós dizemos, “uma gota de sangue italiano, italiano por inteiro”. Na altura senti-me tolo e envergonhado pela minha atitude, e isso levou-me a estudar toda a árvore genealógica da família e compreender de onde vinha cada um dos lados. Temos de nos aceitar por inteiro, e não apenas uma parte de nós…

 

Conta-me mais coisa sobre ti.. temos falado tanto e há sempre tanta coisa nova e surpreendente a cada vez que o fazemos!

Antes de Kauai vivi em New Mexico durante quase 15 anos, numa espécie de relação “on-and-off” com a minha ex-namorada. Algum tempo antes de terminarmos definitivamente adoptámos duas meninas que eram meias-sobrinhas dela e que estavam a ser negligenciadas pelos pais. Começámos como uma família de acolhimento e acabámos por tomá-las como nossas… mas mesmo assim as coisas não resultaram entre nós.

Quando começaram a ver-me frequentemente com as miúdas na cidade começaram a perguntar-me se era o pai delas.. Nunca me vou esquecer um dia em que estava a passear com a mais velha (na altura com 9 anos) e perguntaram-me “é tua (filha)?” E eu respondi “não.. mas eu sou dela”, e os olhos dela brilharam, sabia que se sentia segura e protegida. Quando voltámos ao carro (onde a mais nova estava à nossa espera) repeti o que tinha acabado de dizer: “oiçam, é verdade, estou aqui para vocês mesmo não sendo o vosso pai”. Quero muito que elas venham visitar-me este verão.

Durante todo esse período em que vivi em New Mexico uma das coisas que mais gostava de fazer era correr. Corri a minha primeira maratona aos 30 anos, e alguns anos depois corri os 42 Kms da maratona do Death Valley. Uma vez corri 148Kms em 18 horas, só por correr. Também participei numa competição no Novo México de 80Km.

Não sei de onde veio esta paixão, mas já dura muitos anos… uma vez li um livro, “Born to run”, e fez-me muito sentido… as pessoas perguntam “porque gastar 25 anos de vida a correr 113Km por ano, sem chegar a lado nenhum?!” E eu respondo identificando-me com a parte que fala sobre a “persistência da caçada”, caçar para sobreviver… os humanos são dos animais mais desenvolvidos no que respeita à sua termorregulação, através dos nossos milhões de glândulas sudoríparas. Os únicos que conseguem competir connosco são o veado, os cavalos e os antílopes… correr leva-nos de volta ao que fazíamos há milhares de anos atrás, antes da invenção da roda, das armas ou das armadilhas.. nós perseguíamos algo.

Os meus melhores amigos são corredores tal como eu. No Novo México ainda há Antilopes, e um dia pensámos em fazer um grupo e tentar caçar somente através da corrida. A verdade é que conseguimos e um dos nossos amigos, ligado aos media, escreveu um artigo para a Outside Magazine. Dois anos depois um tipo de Boston contactou-me… queria fazer um documentário e desafiou-me a correr novamente. Começámos a planear tudo e em 10 dias estava gravado.*

 

Qual é a tua área profissional?

Desde que cheguei a Kauai (há três anos) que tenho trabalhado como fisioterapeuta, algo que faço há quase 20. Também já trabalhei na cozinha de um grande restaurante (e talvez daí o meu gosto e à vontade a cozinhar). Há 5 anos atrás vivi numa pequena roulotte no deserto de New Mexico, e esses foram os melhores anos da minha vida.

 

Podes falar-me de uma pessoa que te tenha marcado em todos estes anos de trabalho?

A pessoa que mudou a minha vida foi Rebecca Weiss. Comecei a trabalhar com ela aos 81 anos, e viveu até aos 90. Foi casada três vezes e conheceu o seu último marido e grande amor da sua vida aos 33, o director cinematográfico Donald Weiss; ela estava a fazer uma audição para um filme e, no final, ele chamou-a e disse-lhe: “lamento que não tenha conseguido o papel, mas quer casar comigo?..”. Foi amor à primeira vista. Contou-me que, depois dele morrer, terá dormido com as suas cinzas debaixo da almofada até ao fim.

Por brincadeira, também costumo dizer que a Rebecca foi o amor da minha vida, e a fotografia antiga a preto e branco que está no frigorífico é dela enquanto era jovem. Nós conversávamos imenso e sentia que nos escutávamos mesmo um ao outro. Ela viveu tudo o que havia para viver.. e, quando começou a cegar, um dia disse-me: “Sabes Marc, sei porque estou a ficar cega… é porque vi tudo o que havia para ver. Almocei na Casa Branca, jantei no Palácio de Buckingham.. Viajei por todo o mundo.”

Ela era o “papel principal”, não no sentido egoísta da expressão, mas no sentido de tirar o melhor proveito da sua vida… Ela é que escolhia quem eram as personagens secundárias da sua vida, quem entrava no seu filme ou não…

Quando faleceu fiz uma leitura durante a cerimónia… “a tua voz é tão nasalada”, ela costumava dizer-me… não fazia ideia de que estava a fazer uma audição para filme que era a sua própria vida.

 

*Podem ver um trailer do documentário sobre o Marc, Fair Chase, aqui:

 

Marc Esposito (Kauai, Hawaii)