My Couchsurfing Diaries: Richard Delabere (Maui, Hawaii)

Richard Delabere – “(…) nunca sabemos quem serão as pessoas chave na nossa vida… as pequenas coisas têm um impacto enorme.”

 

1 – Richard, o que te fez vir para o Hawaii em primeiro lugar?

               A primeira vez que visitei o Hawaii foi após o meu divórcio, com uma namorada que tinha faz bastante tempo. Visitámos 3 ou 4 ilhas e depois continuei a vir frequentemente, quer acompanhado quer sozinho. Gostei tanto de Kauai que acabei por deixar o meu trabalho e mudar-me. Sentia-me em casa – não consigo explicar porquê – e fiquei lá a viver cerca de 9 anos. Depois achei que era altura de mudar… começava a ir a Maui cada vez mais regularmente, que é mais dinâmico e tem mais actividade turística, e estou aqui a viver desde então.

 

2 – Em que trabalhavas?

Tenho um mestrado em engenharia mecânica e comecei a trabalhar numa companhia aeroespacial em Baltimore. Na altura as coisas estavam difíceis e estavam a despedir muita gente, mas consegui manter-me e tudo acabou por correr bem… fui transferido para a área de gestão e mais tarde tornei-me chefe de departamento. Quando pedi a reforma antecipada estava a coordenar cerca de 200 pessoas.

A minha experiência profissional mais compensadora foi enquanto trabalhei como engenheiro mas na parte de design, por volta dos meus 30 anos. Desenhava equipamento para os radares de aviões.

Houve 3 pessoas que influenciaram particularmente a minha vida: o meu cunhado (que, aquando da minha candidatura à faculdade, me perguntou o que eu gostava de fazer ao invés do que queria ser profissionalmente), o meu professor de inglês e o professor de matemática avançada da universidade. Este foi particularmente importante… eu gostava de ciências e matemática, pelo que decidi enverdar pela carreira de engenheiro aeroespacial. Foi o facto de ele ser tão bom professor e me ter educado tão bem que me salvou de perder o emprego no primeiro trabalho… estávamos em altura de despedimentos e, um dia, várias pessoas deram por mim a fazer cálculos dificílimos no quadro… e isso deu-me uma chance… viram que tinha imenso potencial… nunca sabemos quem serão as pessoas chave na nossa vida… as pequenas coisas têm um impacto enorme… A vida tem diferentes caminhos que podemos seguir, mas nós só podemos seguir um deles porque é assim que é.

 

3 – Mas depois, mesmo reformado, não conseguiste ficar parado muito tempo…

Quando abandonei o posto tinha 58 anos, e havia 2 coisas na minha cabeça que gostaria de fazer: trabalhar no mercado imobiliário ou escrever livros para crianças. Comecei a trabalhar em imobiliárias porque estava sozinho na ilha, queria conhecer pessoas e manter-me activo. Comprei e vendi tantas casas que hoje em dia me sinto muito confortável com isso.

A ideia das histórias para crianças tem a ver com um tempo que eu dedicava aos meus filhos enquanto a minha ex-mulher se ocupava das coisas dela, e a que eu chamava de “make-up story”. Inventava enredos e personagens e os olhos deles brilhavam de entusiasmo.. habitualmente eram sobre as aventuras de dois Ursos Detectives: o Bupper e o Harry. Eram coisas tão simples como “as pessoas vinham ao seu escritório resolver mistérios como não encontrarem as chaves do carro”. As crianças não são exigentes como os adultos!.. Com o tempo foi-se tornando mais fácil e um dia criei os Leões Detectives Freddy e Fifer. Na verdade as histórias eram semelhantes, mas eles nunca se aperceberam… e isto durou anos!

 

4 – Um dia disseste-me que vinhas de uma família muito conservadora e que isso tinha influenciado toda a tua forma de ser. Fala-me um pouco sobre a tua infância.

               Cresci numa comunidade de somente 350 pessoas no Illinois, no seio de uma família protestante. Sempre frequentei a igreja com os meus pais – não gostava particularmente mas também não me opunha, era assim que as coisas eram. Aceitar Jesus Cristo como senhor e salvador, assim como ser baptizado, era algo muito importante entre nós mas tinha de ser um acto voluntário e eu nunca me voluntariei. Os meus pais ficaram bastante desgostosos, mas nunca zangados.

Com 18 anos fui para a faculdade, a cerca de 320 quilómetros de distância. Lembro-me perfeitamente de ficar num quarto partilhado com outro rapaz e de jogarmos imenso poker.
A escola sempre foi fácil para mim mas entusiasmei-me tanto com a mudança que chumbei à maior parte dos exames e tive um Satisfaz a inglês – se esta nota tivesse sido negativa, perdia o ano -, foi nessa altura que recomecei a estudar.

 

5 – O que te fez abraçar o nudismo? Como conciliaste isso com o couchsurfing?

               A minha mãe costumava dizer que o corpo humano era feio… ela acreditava realmente nisso, era uma forma de justificar as suas próprias atitudes como sendo as mais correctas. O corpo devia estar coberto. A minha irmã nem sequer podia usar jeans para não mostrar as suas formas femininas… e eu nunca me senti confortável nu no balneário, onde devia tomar duche depois das aulas de educação física. Tinha bem delineado na minha mente que isso era “errado”. Acabei por decidir que não queria ser mais assim, e que não mais estaria tapado a menos que fosse mesmo necessário. Foi como o meu grito de revolta.

Quando comecei a receber hóspedes assumi para mim próprio que deveria estar vestido. Então, à noite, puxava o biombo e finalmente despia-me para ficar confortável, e de manhã tinha de ir a correr à cozinha ou algo sem que ninguém me visse. À medida que fui recebendo pessoas com maior frequência, isso começou a incomodar-me…. não estava a levar a vida que queria. Nessa altura comecei a pensar deixar de acolher pessoas, porque não queria ser obrigado a ter de mudar a minha vida.. Mas depois tive este epifania, em que me lembrei que talvez pudesse explicar como eu realmente era… mesmo que ninguém mais quisesse vir. Mudei então o meu perfil e a verdade foi que ninguém se pareceu importar!.. não mudou a quantidade e frequência das pessoas que me procuravam.

 

6- O que mais gostas em Maui?

Toda a experiência de couchsurfing e os couchsurfers de todo o mundo que tenho conhecido. Recebo pessoas desde há 8 anos, mas de forma mais regular e sem intervalos praticamente nos últimos 3 anos. Já alojei tanta gente que acabei por fazer um grupo do Facebook para todos partilharem as suas fotografias e experiências.

 

7 – Tens alguém que te marcou especialmente?

Bem.. teria de dizer que és tu e tenho uma boa razão para isso. Está a acontecer aqui e agora. A minha memória a longo prazo é boa, mas a de curto prazo já começa a falhar. Já recebi tantos couchsurfers, mais de 450, que em determinado ponto começo a confundi-los. Tu destacas-te mais porque estás aqui neste momento e, como tal, eu consigo lembrar-me e apreciar isso.

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