Patagónia – o fim do mundo pode ser tão belo

De repente, sinto-me a afundar em lama até ao joelho. Este era um “easy reminder”, logo no meu primeiro dia em Ushuaia, de: 1. Manter os olhos bem abertos (embora eu estivesse – quase – sempre a olhar para ao chão; 2. Não sair dos trilhos; 3. Tentar fazer as caminhadas minimamente acompanhada. E assim num ápice, a Andreia “de muitos kilómetros percorridos em trilhos nos últimos 2 meses” foi chamada de volta à realidade. Aventura sim, mas segurança também.

Ushuaia é a cidade mais a sul da Argentina, mais a sul do continente americano, mais a sul do planeta. Mais a sul que isto somente a Antártida, mas ai apenas os pinguins e outros animais habituados ao frio patagónico fazem as suas casas. É uma paisagem protegida do homem e da sua cobiça pela conquista das terras.

Não é uma cidade “bonita”, muito pelo contrário… é uma cidade portuária relativamente pequena, algo desorganizada, com casas maioritariamente construídas em estruturas metálicas posteriormente revestidas de pedra e com detalhes em madeira. Vive sobretudo do seu turismo, ostentando orgulhosamente a denominação de “Terra do Fim do Mundo”. Deste modo, o mais fácil é encontrar cafetarias, lojas e hotéis cujos nomes são variação deste título. A oferta de mercado relacionado com as baixas temperaturas (casacos, gorros, luvas ou mochilas, entre outros…) é grande, assim como alguns dos preços dos seus produtos. Frente à baía, dezenas de contentores trazem viveres e outros produtos, pois aqui quase nada se produz e tudo tem de ser importado (o que acresce à subida de preços). Ao longe, as montanhas brancas de neve.

Ushuaia é, para a maioria dos seus visitantes, ponto de partida ou de entrada nas terras patagónicas da Argentina. É uma meta, um destino-alvo por si próprio. Nela confluem viajantes que chegam desde os países “altos” da América do Sul (ou mesmo da América Central e do Norte) após meses de conquistas. Outros partem, depois de soldado o sonho. Para mim, foi o concretizar de um apetite com anos de existência, um desejo de viver aquilo que só via por fotografias e documentários televisivos. Uma imensidão incrível, de uma dimensão inqualificável, indescritível e irrecusável.

No Hostel Cruz del Sul encontro um ambiente muito entusiasmado e inteiro-me dos principais pontos de interesse e actividades a fazer nos próximos dias, entre experiências partilhadas com outros “mochileiros”. Nas 3 horas que medeiam a saída para a minha primeira caminhada, percorro a cidade ao longo da sua rua principal (Av. San Martín) e depois ao longo da marginal (Avenida Maipú), passando no supermercado antes de fazer o almoço. Um bom local para ter uma vista sobre a cidade é no Hotel Buena Vista: subam ao último andar e tomem um café com 2 medias-lunas por apenas 75 pesos (3 euros).

E, porque sobre a Patagónia não se escreve, ficam as fotografias sobre os locais que mais me cativaram.

  1. Laguna Esmeralda

Lindíssima lagoa situada a cerca de 30 minutos do centro de Ushuaia, à qual se chega de táxi ou motorista privado por cerca de 300 pesos (12 euros). O trilho atravessa a zona florestal, abre numa pradaria com as primeiras vistas para os glaciares, volta a penetrar em floresta com alguma inclinação, posteriormente em terrenos pantanosos de tundra e finalmente em pequenos caminhos de pedra que acompanham o riacho proveniente da lagoa. É considerado de dificuldade média sobretudo pelos caminhos atribulados ao longo dos 10km de extensão no total (ecrca de 4h). Conselho: a visitar de manhã ou em dias sem nebulosidade para ser vista em todo o seu esplendor e nunca ir em dias de chuva ou após chuva intensa.

  1. Glaciar Martial

O Glaciar Martial é um dos glaciares “visitáveis” enquanto se está em Ushuaia, e um dos principais pontos de visita. Antiga estância turística dedicada à prática de ski – actualmente com a pista encerrada indefinidamente –, possui um trilho principal de cerca de 1 hora de inclinação ligeira, o qual depois ramifica: numa direção a dificuldade aumenta por uma hora (trilho del Glaciar), atingindo-se uma inclinação de 40% junto da base do glaciar e, na outra (trilho del Filo), um passeio de 25 minutos desenhado na montanha revela magnifica vista sobre toda a cidade a 582 metros de altura.

O acesso faz-se de táxi (cerca de 200 pesos – 8 euros – desde Ushuaia) e a entrada é gratuita.

 

  1. Parque Nacional Tierra del Fuego

Este Parque Nacional é de tal forma magnífico que merece um artigo inteiro a ele dedicado (podem ler e ver as fotografias aqui).

Localizado a 12Kms de Ushuaia, a entrada custa 350 pesos (mas fica a dica, é gratuito antes das 8h da manhã). Para quem não gosta de caminhar há um sistema particular de bus (250 pesos por percurso ou 500 ida-e-volta) e um passeio de comboio – igual ao original que trazia os presos da cidade para trabalharem na floresta.

Levem uns bons ténis ou botas de caminhada e preparem-se para trilhos, lagos, riachos e paisagens de montanhas nevadas deslumbrantes.

 

  1. Canal Beagle e a Pinguinera

O tour de barco que fiz pelo Canal Beagle também mereceu destaque neste artigo. Pessoalmente, foi das melhores experiências que tive em Ushuaia, pelo que recomendo vivamente!

 

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