Príncipe: sorrisos leve-leve na ilha verde

O avião bimotor aproxima-se da ilha cerca de 40 minutos depois de deixar São Tomé e começa a sobrevoar os seus contornos, deixando prever que chegámos a um pequeno paraíso. As águas vão perdendo profundidade, aumentam em transparência e ganham a coloração turquesa que nos habituámos a ver nos principais catálogos e publicidades de viagem. Os telemóveis saltam do bolso para tentar captar, pela janela, esta vista inacreditável: não são necessários ajustes, a beleza é bem real e nos próximos dias entrará por todos os nossos sentidos.
 
A ilha do Príncipe é parte da Rede Mundial de Reservas da Biosfera, um “programa global para a conservação da diversidade cultural e biológica, promovendo o desenvolvimento socio-económico através parcerias entre as pessoas e a natureza que encorajam o desenvolvimento de opções de turismo sustentável”.
 
A experiência proporcionada por este local idílico será certamente diferente consoante o propósito da sua visita: para uma semana de relaxamento total e absoluto, nada deverá haver de melhor do que ficar no resort Bom Bom, hotel da cadeia HBD com bungalows de madeira virados para as praias de palmeiras, areia branca e água bem temperada. Para uma actividade de voluntariado – como foi o meu caso – a cidade de Santo António oferece duas ou três opções de alojamento raramente abaixo dos 50 euros por noite. O local mais em conta é mesmo a Santa Casa da Misericórdia, com quartos a cerca de 20 euros/ noite.
 
O Príncipe não é um destino barato, não tem uma intensa actividade recreativa e poderá não ser a melhor opção para famílias com crianças. A ilha é na verdade algo cara, uma vez que todos os consumíveis são importados de S.Tomé ou até de Portugal, o que automaticamente encarece qualquer produto. A ilha ainda não dispõe de um comércio vivo, uma indústria palpável ou uma perspectiva de crescimento económico. Existem alguns investimentos sobretudo na área hoteleira e na plantação de pimenta, mas não na vertente geral de agricultura ou pastorícia.
 
Simultaneamente, e como seria de esperar pela descrição acima, as ofertas em termos de “restaurantes” são muito reduzidas mas existem, e comendo “nas ruas” é possível ter uma boa refeição por preços acessíveis. No Bom Bom, as refeições leves permanentes (hambúrguer, massa, quesadilla ou peixe grelhado – apenas um lombinho gourmet, atenção) são de 17 euros e o menu completo fica em 30 euros. Na cidade só frequentei a Palhota, mas ouve-se falar muito na Rosa Pão e a Petisqueira Fantasma da Ana. Os pratos principais da ilha são o molho no fogo (peixe seco salgado em óleo de palma), pintado (arroz com feijão), funjimaguita (guba, matabala e fruta-pão), feijão da terra e feijão de coco, fruta-pão assada no fogo e rancho.
 
O clima é o típico tropical com dias quentes entre os 23 e os 30ºC e atmosfera húmida e transpirante; nesta altura do ano (Outubro) em que já começaram as monções são habituais as nuvens em vez do céu azul e a ocorrência de alguma precipitação. Este clima foi fundamental para o desenvolvimento, ao longo de milhares de anos, de uma selva densa, extravagante e em alguns locais impenetrável. Árvores e arbustos crescem e adquirem alturas incomuns, cada qual procurando os melhores raios de sol. Atravessar a ilha em direcção às roças e à costa é por isso como entrar num filme de tempos pré-históricos, nada mais havendo que a terra enlameada sob os pneus do jipe ou da motorizada.
 
As actividades turísticas que podemos considerar apoiam-se em dois dos pontos fortes – as roças e a paisagem envolvente – que se potenciam mutuamente numa simbiose perfeita.

De entre as roças mais conhecidas da ilha destaca-se a Sundy (de todas a roça mais recuperada, com alojamento de luxo, podendo-se ver ainda os carris originais das locomotivas, o secador e as senzalas), a Paciência (plantações de cacau, baunilha e café e com uma escola de pedreiros), o Terreiro Velho (produção de cacau para manufatura do Chocolate Corallo, o principal produto exportado), a Porto Real (com um antigo hospital que foi totalmente engolido pela floresta), a São Joaquim (com vista para os picos João Dias Pai e João Dias Filho) e a Nova Estrela (parte sul da ilha, com um miradouro próximo – o Ponta Mesa – de onde é possível observar um ilhéu conhecido localmente por Boné do Jóquei). Perto da Nova Estrela há uma comunidade piscatória (Abade) sendo por isso um bom local para almoçar peixe fresco e banana frita.

Em termos de natureza existem diversos trilhos que se podem fazer pela ilha, idealmente sempre acompanhados por um guia local. O Príncipe apresenta mais de 140 espécies de aves (30 das quais endémicas) e um dos seus marcos é a desova das tartarugas, um espectáculo natural que começa em meados de Novembro na Praia Grande e que continua até Abril. Para além disso é possível observar a migração das baleias (Junho e Agosto) e golfinhos durante todo o ano.
 
Vamos marcar uma semana? 😊
Praia do Resort Bom Bom