Roteiro pela cidade histórica de Ouro Preto

As 48 horas por Ouro Preto passaram a correr, apesar de “correr” não seja o termo mais apropriado para esta cidade. De facto, as ruas são tão inclinadas e as pedras de calçada tão grandes e escorregadias que um bom calçado é fundamental para caminhar pelas suas ruas.

Se já leram o artigo original sobre Ouro Preto, e deixada talvez a principal recomendação para bem aproveitar a cidade, segue o meu roteiro!

Dia 1

Cheguei a Ouro Preto ao final da tarde, vinda directamente de Mariana através do comboio turístico que liga estas duas cidades em uma hora. Da estação de comboios, caminhei cerca de 10 minutos a subir até à Praça Tiradentes, onde acabei por ficar hospedada. [O local de alojamento e jantar estão referidos no final do artigo.] Após o jantar fui dar uma volta e admirar as lindas fachadas dos edifícios principais que ladeiam a praça. Por sorte estes encontravam-se mais iluminados que o habitual devido a um evento desportivo que começaria no dia seguinte, estanto também muitas pessoas nas ruas. Aplausos e música de fundo provinham de um treino de capoeira a decorrer ao ar livre. À boleia de pessoal do hostel, acabei o dia com uma vista magnifica de Ouro Preto através de um dos seus miradouros e, depois, a ouvir Forró e Pagode na Praça Marília de Dirceu em plenas Festas de Sta. Cruz.

as ruas de Ouro Preto à noite
Treino de Capoeira
Miradouro de S. Sebastião

Dia 2

Para rentabilizar ao máximo a minha estadia, optei pelo passeio turístico de “Jardineira“, um dos antigos transportes locais. Esta excursão de 4 horas de duração (entre as 9h e as 13h) saí do Largo do Coimbra e faz a visita das principais avenidas e igrejas da cidade, da Mina de Ouro do Veloso e termina no Miradouro. O custo foi de 50 reais e valeu totalmente a pena! Marquei pelo Hostel.

A Jardineira veio substituir os eléctricos no transporte colectivo, tendo mais autonomia. Era usada para transportar escravos e outros trabalhadores.

Jardineira (sim, a fotografia não é a melhor!..)

A Praça Tiradentes foi a primeira paragem da Jardineira. Esta era a Praça que reunia os principais poderes da cidade e por conseguinte onde se tomavam as principais decisões políticas, sendo também local de encontro social. Ouro Preto – inicialmente chamada de Vila Rica – é considerada a segunda capital mineira depois de Mariana, a capital original do estado de S.Paulo. Em 1720 a coroa portuguesa dissociou S.Paulo de Minas Gerais (1720), dando importância a Ouro Preto enquanto capital.

Praça Tiradentes e o Museu da Inconfidência

A Igreja de S.Francisco de Assis é uma das principais igrejas de Ouro Preto, embora seja dificil eleger a mais especial de todas. Fica a poucos metros de distância da Praça de Tiradentes, em pleno Largo de Coimbra. Infelizmente, não são permitidas fotografias no seu interior.

É a principal obra do barroco mineiro e de todas a mais fotografada. Eleita uma das “7 maravilhas de origem portuguesa no mundo”, é também Museu das obras de António Francisco Lisboa (o Aleijadinho) e Athaíde, respectivamente escultor e pintor máximos da arte barroca da época em Minas Gerais. O seu altar em pedra-sabão, por exemplo, é das maiores obras do Aleijadinho. Destaca-se o tecto principal, com anjos de pele mulata e cabelos negros, assim como a imagem de Nossa Senhora de lábios particularmente grossos. Opõe-se a outras igrejas da cidade por ter uma decoração menos rica em ouro, fruto de ter sido construída já em época de declínio (entre 1765 e 1805).

Igreja de S.Francisco de Assis

É também neste largo que está em permanência a feira de pedra-sabão, uma pedra facilmente “moldável” e que constitui a maior parte das peças e estátuas de Ouro Preto.

Seguidamente dirigimo-nos para a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1766 – 1772) – frequentada só por nobres ou portugueses legítimos, sendo interdita a descendentes que já tivessem nascido no Brasil. É a unica igreja de Minas Gerais com azulejos portugueses. O seu estilo é em Rococó, utilizando apenas a talha dourada nos detalhes.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos era frequentada apenas por indivíduos de raça negra, maioritariamente escravos. Diferente das outras devido à sua forma arredondada, é uma das que se encontrava fechada.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Por esse motivo, seguimos rapidamente para a Basílica de Nossa Senhora do Pilar (1711-1768), a segunda mais rica do Brasil e a principal de Ouro Preto. Esta é uma igreja barroca riquíssima em madeira e talha dourada (cerca de 340Kg de ouro utilizados), de nave central arredondada e camarotes periféricos destinados à nobreza a relembrar uma autêntica ópera. Esta igreja apresenta dois detalhes: em primeiro lugar, a coroa do estado português está mais alta que a imagem do Espírito Santo; em segundo, chama-se a atenção para o “efeito visual causado pela figura do cordeiro de Deus no tecto”, em que o braço da cruz parece mudar de lado à medida que se caminha pela nave central.

Basílica de Nossa Senhora do Pilar
Basílica de Nossa Senhora do Pilar

A visita à Mina de Ouro do Veloso permite recordar, in loco, a vida dos escravos mineiros durante os séc.XVI a XVIII. Explorada entre 1700 e 1820 por crianças a partir dos 9 anos de idade, é uma das 350 minas catalogadas que usaram o trabalho dos escravos africanos com elevados conhecimentos de mineração provenientes “Do Cabo a Rabá” – a rota do ouro africana. Aqui ficámos a saber, entre outras histórias, que se utilizava um canário como medidor do nível de oxigénio: se ele morresse era altura de abandonar a mina.

Mina de Ouro do Veloso, um bracarense.

A última paragem foi na Igreja Matriz de Sta Efigênia, da qual não tenho fotografias. Esta igreja localiza-se também numa colina sobre a cidade, e combina elementos católicos com os seus equivalentes divinos africanos (ou orishas). Era frequentada por negros que trabalhavam em casa de brancos e que desejavam a sua evangelização.

Igreja de Sta Efigênia (imagem extraída do google)

O resto da tarde foi passada a caminhar pelas ruas e praças, a entrar nas galerias de arte, cafetarias, pastelarias e chocolatarias.. Uma paragem obrigatória é a Casa do Conto, a antiga Casa da Moeda do estado, onde podemos ver a história de todas as moedas nacionais e visitar as Senzalas, onde dormiam os escravos.

Casa do Conto

Dicas Práticas

Onde ficar alojado: A minha primeira opção era o Hostel “Goiaba com Queijo”, numa perpendicular da Rua Direita, uma das principais da cidade. Contudo, optei por pagar um valo ligeiramente superior e ficar hospedada em plena Praça Tiradentes (a praça central), no Hostel Liberdade. Óptimo ambiente e pequeno-almoço adequado, com bolo caseiro de comer e chorar por mais.

Onde comer: Na primeira noite jantei no restaurante-bar Taberna, também na Praça Tiradentes. Por 35 reais foi-me servida uma verdadeira refeição “mineira”, constituída por um prato de carne e diversos acompanhamentos – de tal forma que ainda rendeu para mais duas refeições!! Para além disso este local tem música ao vivo, tornando todo o ambiente uma óptima opção!

Onde tomar um café ou um copo ao final do dia: Fiquei fã do espaço “Cafetaria e Livraria Império”, adjacente à praça. Este espaço está localizado dentro de uma galeria de arte com exposições temporárias, tem também música ao vivo, refeições ligeiras, diversos chás e maravilhosas mini-tartes doces ou salgadas.

Despesas adicionais: todas as igrejas têm um custo de acesso entre 5 e 10 reais. Idosos e jovens portadores de cartão de estudante usufruem de 50% desconto.

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