Sagmeister e a cultura da Felicidade

Vivemos constantemente pressionados para sermos felizes. Diariamente, as redes sociais bombardeiam-nos com vidas perfeitas, com férias de sonho, com carros ou outros artigos luxuosos e um sem número de outros exemplos. A felicidade passou a ser vendida como uma forma de estar permanente e não como um pico de alegria e deslumbramento num dia-a-dia mais rotineiro, e menos que isso tornar-nos-á tremendamente… infelizes.

Há uns dias fui ao MAAT ver o “The Happy Show” de Stefan Sagmeister. Este designer austríaco – mais conhecido pela colaboração em capas de discos dos Talking Heads, David Byrne ou Rolling Stones – focou-se nos últimos 10 anos na procura e identificação dos factores de felicidade, sempre tendo por base a tónica “O que é a felicidade? Como a encontrar? E o que fazemos realmente para ser felizes?”.  E, pegando em algumas das aprendizagens registadas no livro da sua autoria “Things I have done in my life so far” tornou-as visualmente apelativas ao ponto de desenvolver esta exposição.

Estas são algumas das considerações gerais sobre a exposição e são aqui retratadas de modo imparcial, podendo ou não reflectir as minhas opiniões pessoais.

Características Pessoais

Muitos são os factores que contribuem ou não para a noção de felicidade individual. E se, de certo modo, possa haver até alguma predisposição genética e inerente à nossa personalidade (50%), uma grande fatia é devida às actividades – físicas ou intelectuais – escolhidas como prioritárias (40%) e, uma menor, às condições de vida (10%). Ser flexível, escolher arriscar apesar das probabilidades, a capacidade de concretização, resiliência e adaptação, a honestidade e a empatia surgem como um determinantes fundamentais para a sensação de felicidade. O hábito de escrever de forma regular (seja um diário, um blog ou quaisquer outras anotações) permitem uma maior percepção do próprio e, inerentemente, uma maior facilidade para trabalhar os defeitos num sentido positivo.

Relações interpessoais

Um dos aspectos mais focados da exposição é no âmbito das relações interpessoais, mais concretamente das relações amorosas. Nele, estabelece as diferenças entre a intensidade e durabilidade do “amor companheiro” vs “amor passional”, aborda a sexualidade e o número de parceiros sexuais, satisfação matrimonial e a relação entre o estado civil e a percepção de felicidade em si própria.

Felicidade, Trabalho e Tempo Livre

A constatação de que a nossa vida é estruturada laboralmente em 3 grandes períodos foi um dos grandes impulsionadores para a minha viagem de 5 meses, sendo novamente retratada nas paredes do MAAT. “Passamos habitualmente os primeiros 25 anos da nossa vida a estudar, os 40 anos seguintes a trabalhar, depois 15 anos reformados e a seguir morremos”. O autor considera que, no seu caso, é inclusive vantajoso retirar 5 anos do seu período de reforma para extender o seu período de trabalho, que classifica coo “prazeteiro e produtivo” para si próprio e para a sociedade.

Actividades Felizes

A exposição prossegue com a identificação de actividades do dia-a-dia e do seu contributo para a felicidade absoluta, destacando-se na vertente positiva o “ir a um serviço religioso” e na vertente negativa “ver televisão”. Procurei o estudo onde se baseou este gráfico, identificando um texto de 2009 numa revista de Ciência Política. Pelo abstract fica subentendido que é um estudo baseado na população americana – em determinados estados ainda com uma grande ligação à religiosidade – e, no geral, com uma média semanal frente à televisão de 16 horas.

Questões económicas

À semelhança de outros estudos encontrados, Sagmeister demonstra por gráfico que a relação entre o salário médio e os níveis de felicidade não é linear. Assim, e se para baixos valores este é verdadeiramente importante, a partir de determinado patamar que permite uma vida confortável este deixa de ser crucial para a felicidade de um ou mais indivíduos.  O mesmo é verificado comparando-se países tão económica e socialmente distintos quanto os países nórdicos e Cuba ou o Brasil.

“Pela primeira vez na história somos responsáveis pelas decisões importantes das nossas vidas: Onde quero viver? O que quero fazer? Com quem quero fazê-lo?”

 The Happy Show esteve presente nas instalações do antigo Museu da Electricidade, agora pertencente ao MAAT Lisboa, até ao dia 3 de Junho, e resulta de um conjunto de frases icónicas, vídeos e instalações interactivas que nos levam a repensar o conceito de felicidade e o nosso próprio papel no seu alcance.

One Comment

  1. FRANCISCO LOPEZ MERCADI

    …la verdad sobre el “estado feliz” solo puedes vislumbrarla fugazmente esparcida sobre millones de almas, cada una un santuario de felicidad…sus dimensiones infinitas solo pueden ser contenidas en espacios infinitos, un instante milésimo de plena felicidad ha de cambiar por siempre toda la existencia y bien puede ser que nunca te aproximaste a ella…sin tiempo para programar ni buscar…no está en ningún lugar, un día será la luz de una sonrisa la que desata el caos que deja su paso; otro, apenas un rayo de luz, la esperanza, el placer, la rebeldía incomprensible, un sonido, o el esquisto aroma de una piel…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.