Sobre a experiência de viajar sozinha

Pensei viajar pela primeira vez sozinha há 3 anos atrás; estando habituada a viajar praticamente desde que me lembro, a verdade é que nos últimos anos fui sentido uma dificuldade acrescida em fazê-lo: os pais procuram programas com conteúdos diferentes, os amigos casaram-se ou juntaram-se, têm outros planos ou a vida simplesmente não lhes permite algumas das minhas loucuras. Ainda mais verdade é que se há 10 anos atrás tentava destinos mais próximos, ultimamente procuro fazer aquilo que talvez um dia não consiga com tanta facilidade.. e isso passa por partir para longe.

Acho que nunca fui antes por medo… Medo do desconhecido, de não me orientar o suficiente, de me sentir sozinha. De não ser capaz de o viver intensa e integralmente, muito baseado naquela máxima que diz: “happiness is only real when shared”.

Para quem se identificar com estas palavras só posso dizer: vão.

Nesta experiência de apenas 6 dias, como que se de um pequeno ensaio para algo maior se tratasse, descobri ou redescobri diversas coisas:

– o nosso medo baseia-se nas piores expectativas, que muitas das vezes não são reais;

– o lamentar de não fazer algo será, quiçá, sempre superior ao risco tomado;

– nunca deve ter sido tão fácil de viajar como nos dias de hoje (todas as companhias aéreas, de comboio ou autocarro têm aplicações online; há praticamente wi-fi gratuito em todas as grandes cidades – o que permite gerir todos os horários e reservas muito facilmente; as aplicações de mapas – inclusive offline – são soberbas e bastante confiáveis).

Pelo meu percurso conheci pessoas formidáveis, que me enriqueceram com as suas histórias, ensinamentos e entusiasmo, e que me foram acompanhando.

Conheci um havaiano, em pausa de estudos para se tornar piloto, que me desafiou a assistir ao nascer do sol num dos lugares mais mágicos de sempre (Bled). Um filipino, enfermeiro de profissão, que abandonou a carreira para embarcar num cruzeiro e se dedicar à fotografia (já lá vão 3 anos) – cruzámo-nos num pontão e percorremos Veneza de máquina em punho. Um professor inglês e o seu amigo geógrafo a viver na Austrália; com estes, e à boleia do carro de duas americanas (uma terapeuta e outra assistente social) que largaram Nova Iorque para viajar e viver em Tel Aviv, passei uma manhã extraordinária junto do Lago Bohinj. 5 amigos alemães, a tirar diferentes cursos de engenharia, a quem literalmente me “colei” para poder alugar o barco e remar através do Lago Bled. 2 amigas inglesas, já com longos meses de viagem, com quem percorri os 9 km de ida e volta aos passadiços do Vintgar Gorge. E um Guatemaleco, engenheiro petrolífero, que abandonou o seu emprego estável e rentável para estudar nanotecnologia em Espanha e conhecer a Europa nesse período. De todos eles vou recordar o brilho nos olhos e a alegria da decisão tomada.

Em todos os lugares encontrei também gestos de bondade que me deixaram tranquila. Pessoas que partilharam refeições cozinhadas nos hosteis, que não só deram indicações como nos levaram aos locais pretendidos, que correram 50 metros para devolveram documentos caídos no meio de uma rua cheia de gente.

Claro que nem tudo correu na perfeição. Houveram, claro está, contratempos como falta de oportunidade para visitar algumas coisas ou tempo a mais num comboio em que me deixei ficar 90 minutos em vez de 10!.. Mas nunca foi grave e tudo se contorna.

No pouco tempo que estive sozinha, percebi também que estava muito menos sozinha do que alguma vez teria achado. A interacção é muito natural, fluída e totalmente desinteressada, pois todos temos o objectivo comum de viver o momento com o máximo proveito, construir as melhores memórias e não esperar nada mais em troca do que a companhia e vivências do outro. Em viagem, aprendemos a ser mais tolerantes, a dar mais. E em retorno recebemos tudo.

 

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