Um café pelo mundo – D. Ester

Santo António é a capital da ilha do Príncipe e oficialmente a mais pequena capital do mundo. Difícil será chamar-lhe de cidade, sobretudo se nos guiarmos pelos cânones ocidentais. Voltada para uma baía, possui apenas duas, talvez três avenidas principais interpeladas por curtas perpendiculares, onde podemos encontrar a principal actividade comercial local: um mini-supermercado, um ou dois cafés e bares, algumas pensões, assim como o posto da polícia. No centro, a Paróquia da Nossa Senhora da Conceição destaca-se por ser o edifício mais alto e também mais cuidado. O mercado não deverá ter mais do que 10 ou 12 bancas e fica muito próximo do Centro Cultural, com linhas mais modernas.

Fiquei hospedada na Pensão Palhota e não, nem assim dormi em instalações de bambu! A Palhota é uma das residenciais mais antigas da ilha e estendeu-se recentemente para a moradia adjacente. Possui 11 quartos e não sendo um resort de luxo, cumpre perfeitamente as expectativas para quem vem em missão de voluntariado e só precisa de um local para pernoitar e tomar as refeições. E se já o seu nome é curioso, os são tomenses levam novamente a sua criatividade ao máximo com as passwords do wi-fi, tão sugestivas como “instimissimi” ou “revolucaoafricana”.

Sentei-me um bocadinho à conversa com a D. Ester de 66 anos de idade e dona deste alojamento.

 

  1. Quantos filhos tem?

Tenho 4 filhos, mas um faleceu há muitos anos atrás, num acidente de avião aqui na ilha.

 

  1. Viveu sempre no Príncipe?

Vivi sempre no Príncipe mas há pouco tempo estive em Lisboa. Fui fazer uma operação através da Ascendere e fiquei internada no H. Santa Maria; uns tempos depois tive um AVC e acabei por ficar em Portugal perto de 3 anos. Fiquei hospedada com as minhas 2 filhas e 3 netos. Gostei muito de Lisboa mas gosto mais da minha terra… já não sou capaz de morar com a minha filha, faço o que quero e ninguém me diz que não.

 

  1. Já tinha saído do país alguma vez?

Sim porque sou natural de Cabo Verde. Também já estive em Angola.

 

  1. O que mais gosta na ilha?

A ilha é muito calminha, muito tranquila; a empresa HBD veio há uns anos fazer obras e reparar casas para alugar, o que ajudou a trazer emprego para os jovens e criar dinheiro. Isso deixou-me muito contente.

Aqui tenho a minha vida, a minha casa, tudo nas minhas mãos. Gosto muito do negócio que consegui criar com o meu marido – a Palhota – a primeira pensão que existiu no Príncipe. Primeiro começámos com 6 quartos e depois estendemos para mais 5 quartos no edifício novo que construímos este ano.

 

  1. Viveu sempre em Santo António?

Nasci em Cabo Verde na Ilha da Praia e vim com 14 anos para o Príncipe. O barco vinha directamente para a ilha, e os meus pais aventuraram-se porque a vida aqui era melhor. Eles trabalhavam nas roças e eu andei na escola dentro na Sundy (fui depois para a cidade completar a escola até por volta dos 16 anos – 8ª classe). Foi lá que conheci o meu marido – ele trabalhava no escritório e eu trabalhava para os patrões como serviçal. A minha casa era nas sanzalas e lá cresci com os meus pais. Entretanto os meus pais decidiram regressar a Cabo Verde, e como já estava grávida do meu primeiro filho fiquei na ilha (tinha 22 anos).

O nosso negócio começou porque o meu marido, o Alex, já tinha um terreno na cidade e começou por fazer uma casa e depois um Hotel em 2001. Temos 3 casas em Santo António, arrendadas.

 

  1. O que podia funcionar melhor?

Aquilo que mais noto que não está muito bem é o facto de as crianças estarem no jardim-escola apenas das 8h ao 12h, o que é um horário muito reduzido. Elas acabam por ficar muito tempo sozinhas se os pais estiverem a trabalhar, e o ensino também não é muito bom. Nisso noto muita diferença com Portugal, onde a escola dura todo o dia.

 

  1. Quais são as maiores dificuldades que têm?

Problemas de saúde. Há muita gente com tensão alta e diabetes. As crianças ainda tem muitos problemas em termos de alimentação e de vestir (roupa, calçado..). A vinda da ONG veio ajudar-nos; é muito importante que o grupo continue a vir. As pessoas gostam que a ONG cá esteja e quando não estão ficam ansiosas e começam a perguntar muito pela vinda.

 

  1. Quais são os vossos pratos tradicionais?

Temos muitos! A Fuimaguita, mole-fogo, calelu, azagoa, peixe-limão, feijão da terra, feijão de coco, rancho… podia explicar um bocadinho mas tenho de voltar para a cozinha!

 

  1. Uma palavra para descrever o Príncipe:

“Maravilhosa”. As praias, as paisagens… a praia que mais gosto é a Praia Banana.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.