Vida num Cruzeiro – Semana 1

Antes que comecem a leitura deste texto, aviso que não será aquilo de que estão à espera. Para mim, é apenas a realidade percepcionada da forma como a estou a viver. Vindo de qualquer outra pessoa, este artigo poderia relatar uma experiência totalmente diferente. Este é o meu feedback da minha primeira semana a bordo de um cruzeiro (e tenho de acrescentar que tenho tido bastante “peer-support“). Are you ready? Então Freud, puxe da cadeira.

Tive a minha primeira desilusão logo no final do primeiro dia. A grelha de lucros muito aquém do esperado, números que não faziam sentido, dias inteiros totalmente vazios de tratamentos.

Encontrava-me ainda a jantar nessa mesma noite, a minha cabeça já a trabalhar a 200% em busca de soluções. Tinha acabado de chegar de uma semana intensissima de treino em Miami, na qual foi por diversas vezes reforçada a importância de saber a tabela de preços de cor. Em dólares. Tinhamos quizzes matinais em que todos estes números eram questionados – uma tabela em branco para ser preenchida – e, posteriormente, simulação de consultas em que obviamente os clientes queriam saber o preço deste ou daquele tratamento. Com valores relativamente elevados, sabia que era fácil ascender a alguns milhares de dólares com apenas alguns (bons) clientes.

Uma meia hora depois, ao reunir com o meu manager para assinar os documentos finais, perguntei: “porque não temos os nossos preços em libras?. Afinal de contas os nossos clientes são idosos, provavelmente não estão confortáveis com o câmbio, e assim apresento já o preço correctamente”. M. procura por entre a prateleira cheia de papeis à sua direita e entrega-me um deles: uma tabela de preços em libras. Arregalo os olhos para os valores apresentados, não precisando de fazer grandes contas: estes são claramente inferiores aos que me foram apresentados pela empresa durante a formação. Pego no telemóvel e começo a fazer contas: chegam a ser 30% mais baratos.

Faço várias simulações e percebo rapidamente que o meu trabalho aqui não será fácil: para alcançar o mesmo lucro que os meus colegas terei de trabalhar mais, com o aditivo que esta é uma população idosa, culturalmente muito diferente da americana e, “top of the cake”, com valores a quase metade do preço.

Enviamos conjuntamente um email à directora: seria um simples erro nos câmbios? Será que os preços não estavam actualizados? Afinal, toda a empresa saia a perder. Sei na manhã seguinte que, do outro lado, a resposta seria de que estes são os preços competitivos possíveis de praticar.

Na noite do 2º dia sonhei que estava no topo de uma montanha, numa zona plana mas com o meu corpo em grande desequilibrio, olhando para uma falésia à minha esquerda, com dossiers no meu braço direito. A vista era belissima e ao meu lado estavam várias mesas e cadeiras, como as que polvilhavam as antigas escolas primárias. Mas eu nem era capaz de disfrutar da paisagem. Recordo-me de ter despertado com um salto antes de me virar para o outro lado da cama e voltar a adormecer.

No dia 3 consegui finalmente fazer o meu primeiro tratamento. Acordei pelas 5h da manhã aterrorizada que algo pudesse ter corrido mal, a minha cabeça a rever mentalmente todo e qualquer pequeno(/grande) erro cometido apesar de todo o cuidado. Um cirurgião não pode fazer cirurgias somente por ter lido todos os livros sobre o assunto, e a componente prática da minha formação não foi do meu agrado. Por ser um dia de porto só necessitava de me apresentar ao serviço pelas 16h, mas acabei por nem sair do navio: após os treinos de segurança, achei que o meu melhor porto de abrigo seriam mesmo os lençóis por mais umas horas.

Ontem chorei primeira vez, ainda nem a meio do 5º dia estava. Não me lembro de ter chorado por desilusão durante nenhum dos 132 dias que deambulei sozinha pelo mundo. O desanimo apoderou-se de mim: não tive vontade de me levantar ou sequer de voltar a sair do barco apesar de estar noutro porto diferente. Há muitos anos que profissionalmente não me sentia tão inútil e com esforços inglórios para fazer valer os meus serviços estanto eu tão habituada a receber diariamente dezenas de pessoas que tanto necessitam – noutro contexto – deles.

Hoje consegui juntar 8 pessoas para o meu seminário, algo que é dificil de acontecer: a maior parte destes clientes foge de apresentações em salas monótonas durante as férias mesmo que estas tomem apenas 15 minutos. Apresentação fluída, leve, as clientes atentas e várias potenciais candidatas. Uma delas interpela-me então para um verdadeiro frente-a-frente por forma a saber o valor de um tratamento de “face inteira”. Tentei explicar-lhe que tal dependeria de vários factores, e que dessa forma seria preferível marcarmos uma consulta para discutirmos as suas preocupações e eu poder fazer uma avaliação personalizada. “Eu sou uma vendedora, e como alguém que trabalha com vendas tenho de lhe dizer que devia saber os seus valores”.Excusado será dixer que as restantes espectadoras ficaram tão incomodadas que abandonaram a sala.

A medicina estética é uma medicina diferente. Acredito que é uma medicina feliz, que promete alegria, que traz sorrisos, bem-estar e confiança a quem dela usufrui. É uma medicina caprichosa, que em muito se contrapõe à medicina a que estou habituada – a da queixa, da dor e da doença, que tantas vezes consome não apenas o doente como o prestador de cuidados de saúde. Contudo, e sobretudo neste contexto luxuriante e pseudo-glamouroso, é a medicina “feliz” que está a fazer tudo menos trazer-me felicidade, validação ou satisfação pessoal e profissional. E no meio destas reflexões lembrei-me de algo que li há uns tempos: a maior sensação de realização vem do facto de perceber que temos algo para oferecer ao próximo, de sermos úteis, de pertencermos. E percebi que não poderei pertencer aqui a menos que as coisas mudem… muito.

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