Vida num Cruzeiro – Semana 2

Estou de volta aos Barbados, passados 14 dias. Parece que ainda foi ontem que avistei este porto e o Azura pela primeira vez, a fachada branca rasgada pelas listas azuis e vermelhas que desenham a bandeira britânica.

Vinha então cheia de força apesar das noites mal dormidas, das manhãs que começavam de madrugada e das tardes de formação que se prolongavam com trabalhos de casa até depois do jantar. Achava na altura que um navio de 4100 clientes, com 4 dias de “alto mar” seria algo altamente promissor. Trabalho e lazer. Experiência e lucro. Desafio e recompensa. E sim, até seria, caso estes turistas fossem americanos – uma cultura bem mais susceptivel de consumir tratamentos da medicina estética. Afinal de contas, e preconceitos à parte, dei por mim num autêntico “cruzeiro da Inatel”: a média de idades muito acima do esperado e um nível de interesse muito abaixo do suposto face aquilo que eu tinha para oferecer.

Assim, estes 14 dias não foram fáceis. Não sou uma problem-finder, sou uma muito persistente problem-solver. Arregacei as mangas e fiz tudo quanto me lembrei que pudesse ser útil: reformulei formulários, adaptando-os e colocando o meu nome. Personalizei folhetos informativos e criei novos que pudessem ser distribuidos apenas como “reminders”. Montei uma mesa na entrada na qual deixei a minha biografia já com a fotografia oficial e o computador ou tablet sempre a correr uma apresentação com fotografias de “Antes e Depois”. Arranjei a custo um novo quadro branco para poder rabiscar umas ideias durante as minhas apresentações. Preparei todo um novo seminário “off the record”. Fiz para mim própria uma grelha de excel com um “plano de ataque ao freguês”. E ainda assisti a seminários de colegas meus que – “verdades e ciências à parte” – são verdadeiramente um sucesso na sua área.

Por vários dias tive de deambular pelo cruzeiro, metendo conversa aqui e ali, apresentando-me numa onda do “já agora que aqui estou” a caras que nunca tinha visto antes e já agora convidando-os para o meu seminário que só lhes iria roubar uns “10 a 15 minutinhos, só para mostrar umas imagens”. Juntei-me às massagistas junto à piscina, tentando fazer-me notar, como se a bata branca aqui ainda valesse o mesmo que ai. E, já num dos últimos dias, consultei ficheiros e distribui, um por um, 44 vouchers pelas respectivas cabines distribuidas numa extensão de 2 corredores de 400 metros ao longo de 6 andares. Nem uma consulta. No final destes 14 dias, fiz 3 tratamentos. Credo, que nunca trabalhei tanto por tão pouco.

Pelo meio, tinha outras lutas diárias – a principal delas foi aprender a chegar ao refeitório dos Oficiais sem ter de cruzar os corredores dos lixos e reciclagens. Como queria poder comer sem ter de atravessar o lixo. A segunda foi aprender a não voltar a cair no chão enquanto circulo de saltos altos, nomeadamente com um café na mão (algo que aconteceu logo na 3ª manhã). Depois, lembrar-me que lá por ser buffet isso não significa que possa ir à sobremesa sempre que me apeteça – e às vezes apetece tanto. A quarta luta foi habituar-me a acordar num quarto completamente às escuras – eu que desde a adolescência durmo de janelas abertas e gosto de despertar com luz natural. E a última… bem, a última deixo para outro post.

Hoje – daqui a umas horas – começa um novo circuito. Estão para chegar novos milhares de turistas. E eu só preciso de, vá… 10 tratamentos para ficar minimamente “menos infeliz”. As cartas estão lançadas mas eu nunca joguei este jogo. Sou “eu contra todos”, a tentar traze-los para o meu lado da “barricada”, a tentar transformar o “inimigo” num “aliado”. Será que consigo?

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