Vida num Cruzeiro – Semana 3

Novo “pack” de 2 semanas e toda uma leva de novos clientes. São eles cerca de 3100 turistas fugidos do frio e chuva da Europa, ávidos de bom tempo, praia ou piscina o dia todo, comida sempre disponível, bons espectáculos e experiências memoráveis. Para mim, representam 3100 novas oportunidades de conseguir levar o meu trabalho a bom porto.

O último dia do circuito mescla-se de forma perfeita com o primeiro do novo grupo, uma vez que o Azura conta com 2 dias de Embarque: em cada um deles, metade dos clientes parte e outra metade entra, de modo que no final do 2º dia a “renovação” se encontra completa e o navio pronto para partir. Para mim, o último dia foi também representativo da minha necessidade de renovação.

As duas semanas anteriores tinham sido intensas em integração e adaptação, algo que foi surpreendentemente mais difícil do que esperava. Percebi que para além de mudar o exterior, precisava também de mudar o meu interior – e isto implicava mudar de atitude. Comecei por assistir ao seminário de um dos meus colegas de trabalho, um instrutor de fitness que – ciências à parte – é muito bom naquilo que aqui também é necessário: vender um produto, criar uma necessidade ou o desejo por algo que até então era pouco ou nada conhecido. Circundei-me de pessoas optimistas e inspiradoras, reservei algum tempo de qualidade para mim própria, respeitei os meus períodos de descanso e comecei a ler um daqueles livros-clichés de desenvolvimento pessoal que tinha trazido e que são a minha bengala para os tempos difíceis.

Comparativamente, e se as duas primeiras semanas foram muito viradas para o “exterior profissional” – desde absorver toda a informação possível a reformular e criar tudo o que me lembrava – estas últimas foram bastante mais focadas em cultivar o “bem-estar interior”.

Há algumas noites atrás, e no final de um dia de 12 horas de trabalho, fiz por calçar as luvas e esmurrar a minha frustração contra o saco de boxe e purificar o corpo e a alma no banho turco antes de me sentar a escrever. Sem expectativas, acabei por passar na festa que havia nessa noite na área reservada para a tripulação e, pela primeira vez, diverti-me genuinamente com estas caras que já começam a não ser assim tão desconhecidas.

O tempo aqui passa devagar, mas já estamos no natal. O barco está completamente enfeitado e pelos altifalantes ecoam canções conhecidas por todos. Há mercados de natal no átrio principal, promoções e eventos especiais. Ao jantar, convidam-me para a noite de cinema no bar da tripulação. Sem me comprometer (isto porque eu sou de vontades), acabo por mudar de roupa e ocupar o meu lugar no sofá mesmo a tempo do início do Sozinho em Casa – o clássico transmitido todos os anos e que já ninguém se dá ao trabalho de ver porque todos sabem “de trás para a frente” que o puto de 7 anos dá a volta aos ladrões trintões. Sozinha no Barco, acho que senti a Magia do Natal no meio do mar e a mais de 5 mil quilómetros de distância – a partir do momento que deixei de assumir o “conhecido”, me foquei no “agora” e – de modo muito lamechas – me emocionei genuinamente no final.

O tempo aqui passa devagar e em simultâneo muito depressa. Faz hoje um mês que saí de Portugal e, ao mesmo tempo, parece que este circuito – que já vai no 11º dia – começou ontem. Pergunto-me como será viver 7 meses a bordo, ou se sequer aguentarei esses mesmos 7 meses. Em todos os sentidos, deixei mais do que recebi até agora. Numa variação de poucas horas passo do entusiasmo ao desânimo e na minha cabeça já tenho todos os planos B que me permitem sair daqui -seja para casa ou para outro local qualquer que não este. E, ao mesmo tempo, questiono-me como será cruzar a experiência de trabalhar no circuito do Alaska, embarcar num navio de outra companhia, cruzar o transatlântico em “dias de mar” tão grandes quanto o oceano ou conseguir ascender até um cruzeiro de categoria superior.

No fundo, às vezes só queria uma bola de cristal ou um manual com a resposta a todos os meus “Porquês”. Porque é que me meti nisto? Porque é que sou tão insatisfeita? Porque é que não consigo dizer “não” a estes desafios? Ou, pior ainda, porque é que larguei tudo o que alcancei e que me fazia feliz por… “nada”?.. Desculpem, família e amigos. O ser humano é do caraças.

Acho que (em tudo na nossa vida) nunca temos as respostas que precisamos no preciso momento em que estamos a vivenciar as provações. E, apesar de difícil, continuo a querer acreditar que a vida um dia me mostrará o quanto esta aventura me modificou e maturou e o quanto esta experiência por vezes tão dura me fez crescer e capacitar para algo ainda maior que está por vir – whatever that is.

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