Vida num Cruzeiro – Semana 4

Por vezes acordo durante a noite na escuridão quase total de um quarto sem janelas, e nesses segundos imediatos não sei exactamente onde estou. Tal acontece quando passo muito tempo fora de casa ou quando finalmente regresso a esta. Sei que nesses primeiros dias a cama já não conhece os declives e que a mente está ainda a tentar readaptar-se a uma nova mudança. “Ah, estou no cruzeiro” – penso enquanto dou uma reviravolta pelo tempo que o despertador ainda me permite. Tentar localizar-me mais que isso, tanto no espaço como no tempo, é inútil e inglório – todos os dias estou num local diferente, não sei a quantas ando relativamente aos dias da semana e faça chuva faça sol, dia ou noite, aqui dentro da cabine só há duas hipóteses: luz acesa ou luz apagada.

Hoje faz um mês que embarquei. Bolas, que mês mais longo e – como sempre – já começa a passar a correr. Um mês a bordo também pode ser lido como “6 meses para voltar a casa”, embora não saiba realmente neste momento se será tanto tempo. “Quando achas que voltas?” perguntaram-me há dias… e a resposta mais honesta é: “não sei”.
As coisas começam finalmente a correr melhor e – embora com receio de ter sido somente bafejada pela sorte – atrevo-me a dizer que todo o esforço empregue para optimizar tudo aquilo de que me lembrei compensou. Tal não só se traduz por um rendimento superior ao fim do mês (ainda assim muito aquém do que é para mim desejável), mas também significa que estou ocupada com uma prática médica que me faz sentir útil e valorizada.

Entram 2, 3, 4 clientes para se despedir de mim e tirar umas últimas fotografias para comparar “o antes e o depois”. “Já fiz isto 3 vezes e foi sem dúvida o melhor resultado que tive!”, “Onde vai estar para o ano? Vou querer saber porque quero marcar de novo”, “Sinto-me tão satisfeita… muito obrigado!..”. Sou convocada para uma “conference call” com o nosso supervisor de vendas e, em linha com outros colegas, a chamada abre com um rasgado elogio à minha “auto-superação”. Motiva. Mas não posso (nem quero) ganhar asas e no mesmo dia desço à terra perante um episódio de “Spa Drama” – que isto de estar na América Central dá um sabor de novela mexicana que nem vos conto.

Cada vez mais próximos do natal, muitos daqueles com quem convivi nas últimas semanas estão de partida.
Em algumas situações, este é o final das suas aventuras (ou desventuras), pois por qualquer motivo decidiram que a sua vida segue noutra direcção.
Para outros trata-se de um período de férias em casa, após o qual voltarão mas para integrar outro navio.

Dei então por mim a pensar, numa destas noites de farra (que a tripulação aqui diverte-se ““à bruta”” e talvez um dia escreva sobre isso), no conglomerado de novelos de vida que trouxeram cada uma destas pessoas a esta empresa, a este barco, a este ponto do mundo.
Em qualquer outra realidade paralela, tudo isto teria sido diferente. Tivesse eu embarcado em Janeiro e nem por intermédio de histórias ou fotografias daria importância à sua existência. Tivesse eu nunca vindo, e nunca teria conhecido algumas das pessoas que partem hoje.
Terei eu partido, e nunca tocarei a vida dos que vão chegar. E, tivesse eu ficado em Portugal, o que teria sido de mim? O que estaria a fazer agora? Provavelmente o mesmo, e que bem que estava sem qualquer dúvida. E se?.. Mas a história não se escreve com “e ses”, escreve-se com questões desafiantes como “porque não?” e, já dizia Paul Auster… “Lost chances are as much a part of life as chances taken, and a story cannot dwell on what might have been.

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