Vida num Cruzeiro – Semanas 9 e 10

Há também um poema que guardo sempre comigo, qual amuleto da sorte. Acho que já vos falei dele uma vez. Fala de uma viagem a um local distante e idílico – Ithaca -, e mexe comigo desde o momento que o li pela primeira vez (ainda me pergunto de onde o desencantei, mas ele deve ter vindo parar às minhas mãos por algum motivo maior). Fala sobre confiar no caminho mais do que no destino final, e sobre todas as lições e aprendizagens que se retiram desse processo. Para não estar a fazer uma tradução errada, vou deixar-vos um excerto:

“As you set out on your journey to Ithaca,
Pray that your journey be a long one, 
Filled with adventure, filled with discovery.

Pray that your road is a long one. 
May there be many summer mornings
When with what pleasure, with what joy,
You enter harbours never seen before.

Always keep Ithaca in your mind, 
You are destined to arrive there.
But don’t hurry your journey at all.
Far better if it takes many years.”

Após estas 10 semanas a bordo, acho que este poema não podia enquadra-se mais na realidade que aqui vivi.
Parti de Lisboa com destino a uma Ithaca desconhecida, uma vez que até ao dia em que terminei a minha formação em Miami não fazia ideia a que local do mundo iria parar.
Fui enviada para os Barbados e embarquei literalmente nesta aventura de olhos fechados, preparada para agarrar tudo o que conseguisse nos 7 meses seguintes.
Sabia das condições de vencimento, sabia que ia receber somente 700 euros por mês (mais as comissões possíveis) e trabalhar pelo menos 52 horas por semana, mas nunca pensei que não conseguiria ter clientes (nunca tive mais que 7 clientes por cruzeiro, o que aconteceu uma única vez e esse foi o melhor).
Sem conseguir trabalhar, excusado será dizer que (como sabem) passei a maior parte do meu tempo a sentir-me inútil, a emburrecer e ao final do dia a perder o meu tempo, prática médica e também claro, dinheiro. 
Esta Ithaca desiludiu-me em muitas ocasiões. 
Mas esta Ithaca que me deixou pobre, deixou rica ao mesmo tempo.

Nestes 3 meses voltei a locais onde já tinha estado há muitos anos atrás e descobri novos portos.
Senti na pele o que é viver num navio de cruzeiros, o que é estar constantemente na companhia de alguém entre conhecidos e desconhecidos, o ter que ser sociável, agradável e prestável a toda a hora.
Conheci os meandros de um navio desta dimensão, andei pelas cozinhas, pelas oficinas, pela ponte de comando (bridge) e até fui ver a zona de separação dos lixos. Senti a dureza que é trabalhar num emprego relacionado com vendas e, pior ainda, o nefasto que é ter mau ambiente no trabalho.
Mas estas coisas fazem-nos valorizar ainda mais aquilo que temos de bom nas nossas vidas – nada é garantido.
E, no fim do dia, ainda fui por diversas vezes entrevistada para a televisão de bordo, o que não deixou de ser engraçado.

Vivi histórias incríveis que acho que nunca conseguirei explicar por inteiro.
Tirei o máximo proveito de tudo o que pude: fiz snorkelling e kayak, andei no zipline mais inclinado do mundo, nadei com raias e com tartarugas.
Desci um rio numas bóias e o mesmo num escorrega – aí com medo de ser pura e simplesmente lançada pelos ares que estas leis da física têm de ter falhas em algum lado.
De comboio, catamaran, mota de água ou barco a motor vi portos lindíssimos, nadei em águas completamente cristalinas ou de um azul intenso, vi o fundo do mar a bordo de um submarino e os aviões a aterrarem praticamente sobre a minha cabeça, descansei em praias de areia branca e negra e bebi um ou outro rum punch.

Conheci pessoas incríveis que são apenas… pessoas simples, iguais a mim. Dei várias gargalhadas. Muitos deles nunca os voltarei a encontrar.
Vi com os meus próprios olhos como no meio de tanta luxúria ainda podem existir contos de fadas, e quem sabe se daqui a um ano ou dois não vou ao casamento de uma das amigas que fiz aqui.
Assisti diariamente a espectáculos de grande qualidade, desde bandas tributo a cantores em nome próprio, que aí só poderia ter visto indo ao casino ou pagando por eles.
Acomodei-me na espreguiçadeira com uma manta pousada sobre as pernas enquanto desfrutava de cinema ao ar livre, sob luz da lua e das estrelas em pleno mar das Caraíbas.
E comi muito, muito e bem – a figura já não é a mesma, as minhas roupas bem se queixam e vou ter de andar a pão e água assim que chegar.

“Ithaca has given you a beautiful journey.
Without her, you would never have set out.
She has no more left to give you.

And if you find her poor, Ithaca has not mocked you,
As wise as you have become, so filled with experience, 
You will have understood what these Ithacas signify”

Ithaca deu-me “a beautiful journey”
Sem ela, nada disto teria sido possível.
It’s time to go home now.

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