Maurice Goulding – “Quero ver um Hawaii melhor e sei que podemos consegui-lo.”

O Maurice acolheu-me durante as minhas quase 3 semanas de estadia na Big Island – Hawaii – apenas entrecortadas pelos dias em que fiquei no Hostel em Kona, no norte da ilha.
A minha permanência durante tanto tempo acabou por permitir que voltasse temporariamente a ter uma “vida normal”, incluindo as idas ao supermercado, cozinhar e outras actividades do dia-a-dia.

Tem 43 anos e reside em Hilo, tendo habitualmente dois quartos disponíveis para Air-BnB. Aqui conheci também o Marco, enfermeiro-viajante de origem filipina.

1 – Há quanto tempo estás aqui em Hilo (Big Island)?

Há cerca de 2 anos. Vivi 3 anos em Kauai, depois um mês em Ohau e outro em Maui (onde participei num reality show – o High School Reunion na WB network!). Consegui este trabalho (“plant manager” numa empresa de engarrafamento de águas) e vim para cá mesmo antes de terminar o curso de gestão de tecnologia industrial.

Nasci na Califórnia e com cerca de um ano a minha mãe entregou-me aos meus avós – nunca cheguei a conhecer o meu pai biológico. Ela tinha problemas psiquiátricos e eles não tinham como cuidar de mim…. Acabaram por contactar o DCFs ((uma vertente da assistência social)) e fui colocado numa casa de acolhimento de emergência, onde fiquei algumas semanas até ser entregue a uma família com quem vivi durante 3 anos. A “mãe” era muito agressiva e tratava-me mal frequentemente (mas nunca a vi bater a nos seus dois filhos biológicos…), e no final não quiseram ficar comigo.. Fui finalmente adoptado com cerca de 4 anos de idade e foi quando fui viver para Chicago. Hoje em dia ainda tenho alguma ligação com essa família, embora ambos os meus pais tenham falecido em 2013. A pessoa com quem tenho mais ligação é a minha meia-irmã (10 anos mais nova) e minha avó, que com 11 anos até me levou numa viagem a Roma.

2 – Como te sentes agora que abandonaste o teu trabalho? Quais são as melhores lições que retiras?

               A sensação imediata é de alívio, mas também envergonhado pela situação em que fui colocado. O meu objectivo era conseguir que a empresa funcionasse da forma mais eficiente possível. Poderia perfeitamente ter ajudado a treinar alguém, e eles recusaram-no. O chefe actual tem apenas 27 anos e não sabe lidar com a empresa, ele não tem experiência no mercado.

Trago dali os skills, o treino e os contactos. Aprendi que temos de definir muito bem os nossos limites enquanto trabalhadores, isso é imperativo. Que temos de proteger a nossa saúde física e mental. Isto não tem apenas a ver com a quantidade de tempo despendido, mas também com a própria disponibilidade: eu não quero receber chamadas ao fim de semana, por exemplo. Eles dispunham da minha vida a 100%, eu próprio permiti que isso acontecesse; tinha receio de que se não o fizesse eles fossem procurar outra pessoa para o cargo. Contudo, também o fiz porque acreditava a 100% no projecto. Queria este feito no meu currículo… mas isso levou-me a trabalhar em turnos de 60 horas por semana, sem férias durante dois anos.

 

3 – Conta-me mais acerca dos teus planos para começar uma nova companhia de águas..

A empresa vai chamar-se RAH (sigla para Raw Alcaline Hawaiian), mas lê-se como “RAW”, que significa “cru, puro”. Preciso de investimento adequado e está tudo pronto para começar… conseguimos arrancar com cerca de 6 pessoas e um investimento de 3 a 5 milhões de dólares. Um dos investidores possui terra, e podemos utilizá-la para as instalações.

 

4 – Quais são os teus objectivos profissionais com esta empresa?

               Gostava de ter um investimento seguro durante cerca de 20 anos, em que os investidores disponham de 15% da empresa – representando 15% de todos os lucros durante o seu período de vida, embora esteja a pensar estender a oportunidade para um descendente até aos 25 anos de idade. A partir daí (ou até mesmo durante), quero dirigir 85% do lucro para financiar projectos relacionados com educação, através de intercâmbios e bolsas escolares e/ou universitárias.

A minha paixão não é exactamente “a água”, mas não vejo mais ninguém preocupado com estas questões. Nós temos algo qui que toda a gente vai querer… a água é como ouro… temos aqui a oportunidade de construir algo com um impacto muito positivo no Hawaii. Não quero que nenhuma companhia do continente se instale aqui; todo o dinheiro conseguido deverá servir para investir na educação do nosso estado. Em 10 anos quero concorrer para presidente da câmara, e se não for eu, apoiarei alguém com os mesmos princípios e valores.

 

5 – Qual a tua visão sobre a educação no Hawaii?

Acredito que não há nada mais importante do que a educação. Em termos estatísticos, até ao ingresso na universidade estamos abaixo da média nacional… precisamos de melhor educação de forma a podermos tornar-nos o que quisermos. Podemos contruir melhores escolas e faculdades, ao invés de enviar os nossos melhores estudantes para o continente.

No geral, a educação no Hawaii (e especialmente na Big Island) é um problema: antes o Hawaii vivia sob a monarquia do rei Kamehamea, que uniu todos os povos em torno de uma só língua (e embora muitas das situações tenham tido lugar pela força, no final houve muita paz e união). O “homem branco”, através de interesses corporativos movidos pela ganância sobretudo, começou a investir nas plantações de açúcar – não era trabalho escravo mas era muito mal pago e em más condições. Com ele vieram também doenças como varíola ou a malária e a população de 400 mil pessoas decaiu para cerca de 250 mil (mesmo sem emigração). A cultura nativa começou a desaparecer… Sistematicamente, isto acabou por forçar uma cultura num negócio (por exemplo sem pesca a título individual mas com intuito comercial e em grande escala, com necessidade de especialização).

O negócio tirou as pessoas das suas terras e liquidou a sua cultura ao introduzir imensa diversidade. Criámos um sistema em que se trabalhassem muito poderiam subir na sociedade, mas como é que tal é possível quando criam leis em que a educação não é propriamente financiada? Isso faz com que haja sempre mão de obra de baixo custo… “eles” não querem educa-los para que pensem por si próprios. As melhores escolas são privadas, e ainda há uma quota para descendentes directos de nativos. Quero educação e oportunidades para todos, mesmo que seja um imigrante acabado de chegar ou um sem abrigo com filhos.

numa reunião do Rotary Club

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Andreia Castro

Andreia Castro

Viajante antes de ser Médica, vivo com as memórias no bolso, o passaporte na mão e sempre com a próxima viagem marcada.

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