Crónicas de um voluntariado em Beirut (X)

Crónicas de um voluntariado em Beirut (X)

Crónicas de um voluntariado em Beirut - X

- Sobre disponibilidade -

          Quando vim a Beirut pela 1a vez, não tinha disponibilidade para o fazer.

          Não havia espaço na minha agenda para gerir uma situação de uma explosão, com necessidades imediatas de mão especializada e com carências tão dramáticas. Tinha acabado de vir de 10 dias de autocaravana na Islândia (Julho) e um fim-de-semana em S. Pedro de Moel. Na minha agenda constavam as rotinas do dia-a-dia: vários turnos no hospital, as já habituais aulas de dança, escrever artigos para o blog de viagens (porque é disso que se trata o Me across the World), desenvolver o meu side project (a Consulta do Viajante Online), reuniões e muito pouco tempo livre para variar.

 

          Não há disponibilidade para uma catástrofe. Essa disponibilidade cria-se, tem de se arranjar espaço e tempo, e a dedicação implica sacrifícios. Todas as despesas da primeira viagem foram pagas por mim, assim como perdi os meus honorários não apenas dessa semana como de todo o mês de Setembro, em que suspendi actividade para me dedicar a pedir e contar donativos, organizar caixotes, desdobrar-me em contactos, voltar a Beirut e… encher um contentor. Neste tempo em que não trabalho, não ganho – e não fosse ter almofada financeira, nada disto seria claro possível.

 

          Relativamente ao que aconteceu em Beirut, houve a “sorte” (?) de na mesma pessoa se juntar alguém experiente em viagens, que já correu meio mundo, que tem lata para falar com toda a gente, que vive no agora sem olhar a consequências e… que é médica e podia ser útil. A pessoa que conheceram através de Beirut não nasceu no dia da explosão – mas interiormente cresceu muito com ela, descobriu partes de si que não conhecia e desenvolveu sem dúvida ferramentas úteis para o futuro.

 

          Tal como os voluntários que vieram comigo e outros que participam regularmente na recolha e organização de material não tinham disponibilidade, disto podemos tirar uma conclusão – se há algo que mexe connosco, há algo que podemos fazer. Não temos de ter todos as mesmas causas. É tão legítimo identificarmo-nos com a causa A mas não com a B como criar afinidade com a Filipa mas não com o Manuel. Mas todos podemos – devemos! – fazer algo por aquilo que nos toca

 

Beirut - cronica voluntariado10

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