Medellin – a Favela Chique

É demasiada coisa a acontecer. Para qualquer lado que olhe, casas tijoladas, prédios a rasgar as encostas, uma imensidão urbana que não termina. Pessoas, muitas pessoas. Muitos pedintes, muitas caras vazias a viver nas ruas – a dormir directamente na pedra, seja no meio de uma praça seja num jardim ou num qualquer outro recanto. Muitas crianças que mesmo antes de serem concebidas já estavam destinadas a não ter uma vida fácil. Carros que se atravessam uns à frente dos outros, sem quaisquer regras, sem qualquer ordem. Casinos. Droga oferecida em sussurros.

As primeiras impressões de Medellín não são boas. O facto de ter chegado às 6h da manhã, com uma noite não dormida depois de dois autocarros nocturnos que me trouxeram desde Salento até aqui, também não ajuda. Deixamos a mochila no hostel onde nos é oferecido um duche e um pequeno-almoço revigorante. Não há tempo para descansar – a cidade não deixa, nem nós podemos.

É por cerca das 10 horas que nos encontramos com Leandro na estação de metro de San Javier, prontos para mais uma Free Walking Tour. Esta, apelidada de “Comuna 13”, levar-nos-á a 4 dos seus bairros, numa zona da cidade renascida das cinzas de um passado recente que ainda queima. Entre 1980 e 2009, uma operação militar mascarada de “operação anti-droga” matou indiscriminadamente cerca de 3000 residentes do bairro, 350 dos quais no mesmo dia. Foi já nesta década que a zona uniu esforços para se re-inventar, muito à custa da street-art: hoje em dia, graffitis lindíssimos dão cor e vida às paredes antes manchadas de sangue. Comemos um gelado, tomamos café colombiano e passamos por galerias de arte.

Da parte da tarde optamos por explorar a zona central da cidade. Deslocamo-nos de autocarro, metemos conversa com os locais e descemos a colina em direcção ao Parque Berrio. O trânsito vai-se avolumando e começamos a caminhar mesmo antes de atingido o destino final. É Sábado e as pessoas andam a passear pelas ruas. A praceta “moderna” do Parque Berrio abre para a Plaza Botero, na qual se encontram cerca de 15 estátuas de bronze de Botero, com personagens semelhantes às pinturas já vistas em Bogotá. Uma vez mais, o exagero nas formas, a desproporção, a temática dos nus e os animais giganto-fofinhos. Por coincidência há mercado na praça, pelo que dezenas de artesãos tentam fazer negócio connosco. Damos umas voltas e à medida que a temperatura começa a subir refugiamo-nos numa igreja simples, onde pouco tempo depois começa a missa. O cansaço começa a não dar tréguas e está na altura de mudar de lugar. Chamo pelo uber duas e três vezes, a cidade é tão densa que nenhum se consegue aproximar do local onde estamos, apesar de ser o centro (mas o que é o “centro” numa cidade com mais de 2 milhões de habitantes?!). Enquanto aguardo, faço uma videochamada para “casa”, o português fluente, um rosto muito desejado do lado de lá… e, quando dou por mim, encontro-me rodeada de mais de 20 homens a assistir à situação.

Tínhamos programado ver o pôr do sol no Cerro Nutibara, mas pedimos mesmo é para sermos levados para o hostel. O dia já ia longo. Sigo o trajecto pelo google maps quando me apercebo que o dito Cerro está praticamente à minha direita… uma coincidência feliz que força um desvio.

O Cerro Nutibara é um pequeno monte de onde se tem uma vista belíssima sobre a cidade. Tem uma pequena aldeia tradicional “para turista ver”, o Pueblito Paisa, com lojas de artesanato e pequenos restaurantes – num dos quais a acabamos por jantar à medida que a noite cai e as luzes vão brilhando quais pirilampos. Do descampado que ladeia o Museu da Cidade, a vista é ainda mais incrível: praticamente 360 graus de uma cidade sem fim, em que ainda assim é possível definir algumas áreas mais modernas pela altura e quantidade dos prédios (não pelos seus traços arquitectónicos, nada disso). Se tinha ficado com a sensação de que Bogotá era grande, saio daqui a achar que Medellin é ainda maior – talvez por a cidade se ter desenvolvido numa depressão, estendendo-se quais tentáculos pelas montanhas circundantes. Não consigo deixar de pensar que isto será aquilo em que o Rio de Janeiro se poderá tornar daqui a uns anos, com os morros consumidos pelas favelas. 

Vista de Medellín a partir do Cero Nutibara

Após o ceviche (e que saudades de um ceviche!..), regresso ao EL Poblado. Esta é claramente uma zona diferente da cidade, com mais prédios, com mais áreas verdes, com uma vida nocturna única. Pelas ruas que ladeiam o Parque LLeras, dezenas de pessoas saíram para jantar, tomar um copo ou simplesmente preparar-se para entrar numa das muitas discotecas. Há salsa, há bachata, há muita alegria e movimento nestas ruas. Os bares são extremamente apelativos, modernos, quase luxuosos, equilibrados por arbustos e árvores que os integram com requinte. Os rooftops são de tirar o fôlego e permitem uma contemplação ainda maior – e até me consegui enfiar num que faz parte de uma galeria de arte e que já estava fechado, vazio e às escuras!!.

A cidade redime-se nos seus momentos finais. Afinal, podia cá ficar mais tempo. Afinal, se tivesse descansado mais, se calhar a minha visão de Medellín teria sido diferente. Talvez tivesse gostado. Talvez tivesse ficado os dois dias previstos em vez de um. Imagino-me num dos muitos restaurantes a comer um brunch ou a tomar café enquanto escrevo estas palavras. Sinto falta da liberdade de viajar sem tempo definido.

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